quarta-feira, julho 19, 2006

Um ciclo completo - um círculo de fogo!

Este texto eu dedico a todas as pessoas que tem banda, querem viver de música ou trabalham com arte. É um texto dedicado à visão!

Em 2004, eu estava vivendo um turbilhão de emoções. O Tsunami na Indonésia ainda não tinha devastado os noticiários, o governo Lula dava seus primeiros passos rumo à crise política e o mercado fonográfico no país estava indo pro fundo do poço. Os juros altos, a elevação do preço do dólar, a supervalorização do Rock pela mídia em geral quase acabaram com a maioria dos bons contratantes de shows deste país, pelo menos na região Sul e Sudeste. O que valia 2 passou a valer 4, o que era uma revelação passou a ter status de estrela, o que era bom ficou horrível. No meio disso tudo estava eu.
O Maskavo enfrentava seus próprios demônios. Depois de quase 5 anos na estrada compondo e viajando, construindo famílias, namoros, desamores, fazendo discos e negócios e tentando a sobrevida nos destroços que nós mesmos construímos foi que veio a idéia de enfrentar a realidade. A realidade do Maskavo era um palco de cortinas praticamente fechadas. Tínhamos sérios problemas com nosso empresário na época e o descontentamento era algo evidente em nossas vidas. A convivência entre nós exibia desgastes, requintes de solidão extremos, muita desinformação e desconfiança. De todos os lados vinham as reclamações. Da minha parte, o rompimento do contrato com a Deckdisc era a chave do segredo. A troca de empresário era a motivação inicial. E o que faltava? Um disco de músicas inéditas diferente, que não se parecesse em nada com os 3 primeiros discos que fizemos juntos. Nem as músicas, nem o nome, nem a capa. Apenas nossa idéia do que seria, um dia, um disco de reggae que tivesse começo, meio e fim. Um ciclo completo.
O Maskavo sempre foi uma banda avessa a prêmios. Quer dizer, nunca fizemos nada buscando reconhecimento ou notas. A filosofia da banda sempre foi uma dicotomia: show/fã e o pilar de nosso trabalho precisava de um novo tipo de cimento.
Como somos macacos velhos resolvemos usar as experiências de todos para saber qual rumo tomar. Um disco independente? Qual repertório? Quem iria distribuir? Quem tocaria no rádio? Onde arrecadaríamos verba para gravar o disco? Quem seria o produtor? Onde seriam os ensaios? Foram tantas discussões, argumentações, momentos de crise. Nem um site decente tínhamos, na época. Onde buscaríamos a força interior para realizar tal façanha?
Lembro com muito carinho dos meses que antecederam as gravações do SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL. Os ensaios foram onde hoje é a casa do Prata, mas na época era a minha casa também. Eu já estava namorando a minha esposa e escrevia praticamente todos os dias explicando as dificuldades em se fazer um disco no escuro pra ela. Também me empenhei em fazer algo que eu nunca tinha feito: escrever músicas sozinho. Poucas delas deram certo, mas as idéias que surgiram de músicas inacabadas acabaram compondo grande parte do que são as linhas de baixo e algumas frases que temperam o álbum hoje em dia. Eu fiquei radiante com a possibilidade de fazer um disco sem compromissos reais com a indústria fonográfica. Claro que a luz estava no final do túnel. A própria editora da Deck ainda queria publicar nossas músicas e isso pra mim era um sinal de portas abertas. Outra coisa importante foi o Cacá e o YB, estúdio onde gravamos. Foi a primeira experiência em estúdio prazerosa que eu tive. À começar pelo tamanho do estúdio e pela qualidade das pessoas e do equipamento presente e disponível. E depois pelo acesso à tecnologia de gravação e captação, que sempre me interessaram, e guardados em segredo nos tempos de Deckdisc. Eu nunca tinha colocado meus dedos nos faderes, periféricos valvulados e amplificadores na vida. Aproveitei a chance para aprender a gravar, mixar e depois coloquei tudo à prova na fita demo que produzi da banda do meu irmão, o Virgem Again.
Meu irmão foi muito importante em todo o projeto. Breno acabou indo passar quase quatro meses comigo em São Paulo. Eu liguei suplicando sua ajuda, afinal, a banda estava em frangalhos e falar deles seria muito difícil porque eram problemas dos outros e não meus, mas acabavam interferindo nas minhas escolhas. Aquele período de cada um de nós foi um saco. Um desânimo do caralho....
Com a presença familiar, onde dividimos minha cama, cerveja, longas horas de conversas e composições, horas nos ônibus e quartos de hotéis pelo Sul do país, eu e o Breno começamos a fazer um site do nada, sem nem mesmo saber como programar uma página na internet. O site ficou tosco, mas a idéia de envolvimento em todo o processo artístico era como deixar meus olhos soltos no microscópio da banda, nos nossos pontos fracos. E faltava dinheiro pra tudo, até para comer as vezes.
Quando foi Agosto, dia 3, especificamente, de 2004, entramos em estúdio com 9 músicas prontas e 4 músicas inacabadas. O Beto Machado foi contratado para ser nosso engenheiro/produtor pela intimidade e experiência que tinha com o Maskavo nos anos de gravadora. O nome do álbum veio em uma conversa embaixo da minha janela, eu, Prata e Breno tomávamos sol e pensávamos que o disco merecia um nome psicodélico, imaginário e instigante, sonoro e que não fosse monossilábico. Daí, entre um e outro copo de cerveja o Prata soltou a pérola, dilapidamos a idéia e ficou O SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL. Com a capa do disco o buraco foi mais embaixo. Sempre curtimos a idéia de colocar arte na capa mas entendíamos que é preciso associar o nome da banda à imagem da mesma, uma coisa problemática para qualquer artista. Foi uma guerra entre eu e o Prata, principalmente. Eu não gosto de coisas muito dadas, fáceis e que não necessitem de reflexão. Sou avesso a idéia de que o povo é burro e não almeja profundidade nas coisas. Sou contra tudo o que é legivelmente volátil. A idéia que prevaleceu, no final, foi a foto dos integrantes na disposição do show, nossos rostos, com um fundo de quadro que o Prata comprou de um artista brasiliense com a programação do Petersen, nem sei quem é esse cara, mas o que ele fez valeu o investimento. A foto do pôr do sol na contra-capa é do Breno tirada em um dia bonito em São Paulo à caminho do estúdio. Hoje analiso tudo dando risada, mas na época levávamos todas as discussões a sério e até a capa do disco foi motivo de briga. No final, cedi porque confio no que dizem o Prata, o Quim e o Marceleza. Afinal, somos todos fundamentais. Mas o layout quem idealizou foi meu irmão e o Prata e isso me dá certo orgulho. Nossa melhor capa até hoje.
Um fato legal de se lembrar foi a gravação da música SINGELA CANÇÃO. Composição de 2001 do Quim, essa música tinha sido preterida pela gravadora por ser muito melosa, não ser um hit de rádio, qualquer coisa era uma boa desculpa para não gravá-la. E nós, muito por orgulho, fizemos questão de inserí-la no álbum como demonstração de força de vontade, gosto pessoal e sob forma de desabafo, mostrar que quem mandava na banda a partir de então éramos nós. Mas na hora de gravá-la a coisa enroscou. Nenhum de nós depois de quase 3 semanas no estúdio tinha a menor idéia em como arranjá-la porque, enfim, descobrimos porque a gravadora não gostava dela. Em si, a música não tinha nada demais, era meio infantil e só nós 4 gostávamos dela de verdade. Era questão de amor pela canção. Mais uma vez, depois de discussões, quase abandonamos a música e fomos buscar outra em nosso repertório. Um dos integrantes quase chorou quando eu disse que a música escolhida para substituir a Singela Canção não era boa pra gravar. Eu também já estava de saco cheio de tudo, das pessoas e da rotina. Queria que as coisas fossem do meu jeito e isso não funciona em uma banda. Eu poderia até chorar, mas esse não é meu estilo. O Breno, o agente neutro, acabou nos dando o maior esporro e nos fez ver que desistir daquela música seria um erro. Voltamos pro estúdio, o Quim se armou das baquetas, o Prata foi pro baixo e eu fui pra guitarra, o Celeza soltou o gogó e fizemos ali um arranjo dance-Roberto Carlos improvisado que nos pareceu legal. Trocamos eu e o Prata de instrumentos, cada qual dilapidou as idéias e saiu em um ÚNICO TAKE a faixa final do álbum. Ali, eu fiz minha sincera homenagem ao Quim. Que música complicada... QUE DELÍCIA!
Ontem fomos contemplados com o prêmio Dynamite pelo melhor álbum de reggae independente de 2005. O SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL nasceu sem esse intuito. Nasceu como um grito de liberdade, de dor, de necessidade, de vida. Nasceu para fortalecer o Maskavo, nosso sistema show/fã, nasceu fruto de amor e vontade musical. Nasceu REGGAE no sentido mais puro da palavra. Quando, em 2005, fui culpado de ter traçado a linha anti-pop do disco porque ele não foi muito executado nas rádios eu me calei, segurei a língua, abri meu peito e segui. Fizemos um DvD baseado 70% no repertório do álbum presente e minha convicção se fundiu a esse prêmio. Duas semanas atrás confessei ao Quim que, na minha opinião, esse era nosso melhor trabalho e que eu tinha muito orgulho dele. Hoje estou sorrindo e espero que as desconfianças se conformem com o pó dos meus pés. Ninguém disse que a luta seria fácil. O ciclo se fechou com chave de ouro. Silêncio.

quarta-feira, julho 12, 2006

Porque a Copa não é nossa?

O sucesso da Copa do Mundo, para mim, foi a certeza de que o fracasso da seleção brasileira estava nos pés de Cafu, Roberto Carlos e no comando de Parreira. Todo mundo sabe que eu gosto de futebol. Não sou um Nelson Rodrigues ou o Armando Nogueira, mas eu sou eu e minha opinião se parece com a deles, com as do Kfouri e do Tostão, todos profundos entendedores de futebol e apaixonados pelo jogo. Pois bem, eu me lembro de estar no ônibus da banda viajando para Casca, interior do Rio Grande do Sul, quando disse que o sucesso da seleção dependia de três alterações fundamentais pois o esquema tático do Parreira com dois laterais velhos, no caso Cafu e RC, e com o Ronaldinho Gaúcho no meio campo era arcaico, ultrapassado, europeu demais para nosso padrão de futebol. Minha desconfiança com RC e Cafu se confirmou na primeira partida, contra a Croácia, pois o peito de aço do Cafu, de 1994, não conseguiu ganhar nenhuma corrida e dividida contra Srna, o lateral esquerdo croata. RC, pela baixa estatura, tomou duas bolas nas costas que poderiam ter resultado em gol não fosse a cobertura de Juan e também não ganhou nenhuma dividida no jogo dando apenas chutões e caindo no gramado feito uma besta. Eu estava certo em minha consciência.
Por outro lado, com a entrada de Cicinho e Gilberto, o time ficaria mais ofensivo e isso tiraria a vaga do retranqueiro Emerson, pilar do esquema tático de Parreira e, na minha opinião, uma mula. Ele daria lugar a Juninho Pernambucano, jogador de destaque no Lyon, criativo, veloz, que faria a ligação rápida entre o meio campo e o ataque e deixaria o Zé Roberto mais recuado, caso o contra-ataque acontecesse. Juninho, na verdade, iria cumprir a função do Ronaldinho Gaúcho em todos os sentidos e liberaria o craque para ser o terceiro atacante sem função definida no meio campo, sua especialidade no Barcelona e que consagrou seu futebol na Europa duas vezes com a conquista da bola de melhor jogador do mundo. Na frente, por luxo e capricho, Fenômeno e Robinho, outra estrela em ascensão. Adriano seria o reserva do fenômeno e nós, Hexacampeões mundiais!!! Mas eu não sou o Parreira e vimos no que deu a campanha da seleção do Brasil em 2006. No ônibus eu cheguei a discutir sobre minhas opções. Fui obrigado a ouvir que Cafu e RC eram os caras. Pena que eu estava certo. Mas o triste mesmo foi a certeza ter se confirmado em realidade. O que salvou a Copa foi Zidane expulso na final, ou seja, outro fiasco para esta velha guarda que pede pela aposentadoria dos campos. Zidane não poderia ter mais este triunfo sobre o povo brasileiro. Sobre Ronaldinho Gaúcho, inclusive.

segunda-feira, junho 26, 2006

Raízes da História - Holanda vs Potugal na Copa do Mundo de 2006

Para a maioria das pessoas foi apenas mais um jogo de futebol ou um jogo na Copa do Mundo de 2006. Para a maioria das pessoas foi um jogo violento, cheio de cartões amarelos, quatro jogadores expulsos, apenas um gol de Maniche, português, e isso é um lado da história. Mas eu vi o jogo com outros olhos. Afinal, eu gosto de História.
Existe, sim, uma rixa histórica, medieval, entre Holanda e Portugal. Uma rixa que se prolongou e acirrou com a expansão das colõnias européias pelo novo mundo, pela América mais precisamente, e que nada mais era do que uma corrida pelo domínio da economia mundial. Holandeses, que são anglo-saxões e vikings, tem em sua origem uma característica especial para os tempos médios. Eram protestantes, em sua maioria, ou judeus e viviam sobre à sombra maligna da Igreja Católica Romana, perseguidos e punidos com violência em toda parte da Europa. Mas na Holanda tinham construído um país com liberdade de culto, com uma cidade comercial famosa, Flandres, e era berço de muitos intelectuais e ousados comerciantes que, embalados pela fé sebastiana nas viagens ao mar, o qual os lusitanos teriam como seu quintal, e foram buscar mais perto de casa o que só havia na Índia e no Sul do continente africano. Portugal, antes conhecido como Condado Portucalense, foi um presente do Rei da Espanha para um cavaleiro depois de seu êxito na guerra de expulsão do mouros e no combate a infiéis da cristandade. Era, no entanto, profundamente influenciada pela matemática e pela arquitetura árabe e tinha no mar a esperança de crescer como potência. Com as ousadas viagens à Índia e com o aumento do mercado na Europa em busca de especiarias, e principalmente pela tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, os portugueses foram obrigados a inventar novas rotas para manter seu comércio. Em 1500, chegados ao Brasil, logo não acharam por aqui nada que lhes convinha. Mas em águas caribenhas já se encontravam holandeses pirateando ou procurando terra para colonizar, mesmo ela sendo da Espanha por causa de um acordo com Portugal, para plantio da mais nova iguaria em voga nos círculos da nobreza e dos burgueses europeus: o açúcar. Os holandeses aportaram no nordeste brasileiro algumas vezes e por aqui modificaram as estruturas sociais do Nordeste com sua Companhia das Índias Ocidentais.
Quando os portugueses se deram conta de que tinham que estabelecer a soberania da colônia, através da ocupação social e da exploração do pau-brasil, já estavam em franca concorrência com os holandeses em busca de atrativos e novidades no mercado. O holandês, empreendedor, foi um explorador voraz. O português, empreendedor, foi um explorador iludido.
No jogo me atentei a isso aí e mais um monte de coisas que eu sei sobre Portugal e Holanda, agregando-se ali ou aqui alguma dúvida que eu tiro quando chego em casa, quando pego meus livros e descanso um pouco à cabeça.
Um jogo de futebol para a maioria, mas pra mim foi um jogo com 500 anos de história e rixas, por isso a agressividade, as faltas em excesso e as expulsões. Silêncio.

segunda-feira, junho 19, 2006

Extemporâneas N# 4 - O Brasil precisa de um plano melhor

Pra mim não é muito fácil ler notícias pela internet. O efeito que um jornal ou revista tem em minhas mãos é muito maior do que tem a informalidade dos meus olhos refletindo a radiação do monitor colorido. Uma coisa na qual eu acredito bem mais ou menos são nos meus olhos e por isso eu aceito o experimental e o espontâneo como uma bela faceta humana. Mas me impressiona como, depois de anos de estudo e observação, pequenas linhas em sites de notícias me desapontam.
Meu pai uma vez me disse que teria um dia na minha vida onde eu teria que escolher entre viver uma ideologia pessoal política ou apenas viver surfando o sistema apoiado meramente no estar vivo e poder apreciar aquilo que é bom nas coisas da vida. Demorei muito para compreender que meu pai tem razão quando diz isso pra mim, afinal nada que eu tenho foi construído facilmente. Minhas mãos calejadas, sim, calos de verdade porque já brinquei muito com enxada, tijolos, sacos de fumo de arapiraca, corte de grama, lava-carros humano e muito mais, parecem úteis depois de tantas práticas mecânicas, servem para me alimentar e acariciar os cabelos, os pêlos, a pele, as penas, o algodão. Política parece não ter sentido. Marx me assusta pois ele previu o que somos em suma: escravos do salário. Mesmo que o salário seja uma surrealidade do brasileiro e, na melhor das piores hipóteses, o buraco da previdência social pois não teve político capaz de entender que para uma reforma, para uma revolução interior, é necessário abrirmos mãos de privilégios coletivos. É necessário começar do ZERO para que, de uma vez por todas, uma idéia séria sobre dinheiro ampare com modernidade a falência do governo, o buraco negro das contas. Li que o PPS vai apoiar Alckmim discretamente. Alckmim? Já me deparei com o fantasma-Lula e não entendi nada do que aconteceu com seu governo, apesar das estatísticas favoráveis, na verdade o que era preciso mudar e melhorar, o que era preciso coragem vermelha pra igualar e aparar arestas não foi feito. Continua-se a po´lítica dos números e do assistencialismo social público. Meu sogro foi ótimo quando disse que estamos vivendo as legislações do século XVIII, eu me sinto colonizado como um brasileiro do século retrasado também. Pense bem, a dissidência do PT apoia o PSDB, o PT não está em posição de encarar as deficiências estruturais de cento e poucos anos de República e nossa república, uma das únicas verdadeiramente, é uma bagunça, e as opções para o VOTO ficam restritas ao interesse pessoal, ao ego e dinheiro e a moral e aética ficam em segundo plano. Quantas vezes vi amigos votarem em candidatos que ia priviliegiar seus pais literalmente. Eu nunca fiz isso. Não sei mais o que fazer com meu voto pra falar a verdade. Já discuti sobre o voto nulo, já escrevi uma música que fala levemente sobre isso mas não sei se o preparo político do povo intelectual e burguês e da indústria do Brasil tem a capacidade de incorporar novos canditados além destes poucos que nos representam mal e porcamente. Em quem eu votaria depois de anular meu voto? O presidente colombiano recém-eleito, Uribe, disse que a América Latina está pagando o preço por colocar no poder pessoal sem profissionalização política e intelectual em cargos de responsabilidade. Taí, eu concordo com este político mas sofro muito por isso. Eu já tinha pensado muitas vezes nisso e só as contas, a vida na estrada e minha família já me dão mais do que muito para pensar. A vida, como eu disse, nunca me foi fácil. Grato e feliz eu me sinto por isso. Sinto que carrego uma cruz bem menos pesada do que muita gente por aí. A saúde me é companheira e da minha mulher e filho também. Tenho uma avó de 90 anos e outra de 75. Na genética em mim existe uma química favorável à velhice. Bem, Brasil, é preciso coragem para mudar. Eu sou do tipo de homem que, se meu pai aceitasse suborno, eu não mais falaria com ele e ele bem sabe disso. Eu entregaria meus irmãos se eles fossem bandidos. Eu sou moderno a esse ponto. Silêncio.

domingo, junho 18, 2006

A gente é aquilo que o sentimento e a emoção não é - uma energia!

Me flagro diariamente em um diálogo profundo com meu trabalho. Cada dia que passa eu sinto que fica mais importante criar bases, ritmos, uma poupança segura para desempenhar minha responsabilidade com alegria. Durante minha juventude, tocar baixo sempre foi uma diversão muito boa. E hoje, tenho certeza, o nível de intimidade que eu tenho com o meu instrumento de trabalho é quase uma relação erótica e sexual, rola uns pegas aqui e ali, mas o beijo é sempre de língua. Também me sinto fragilizado quando não estou conseguindo seguir os dois ritmos que eu sou obrigado a acompanhar enquanto transando um som, um show, aquele momento mágico que rola no palco: o ritmo da bateria e o embalo do público. A relação exata entre o bumbo, a caixa e o sorriso das pessoas que vão a um show do Maskavo é diretamente proporcional ao preparo emocional necessário para embalar milhares de corações por minuto. O baixo é minha segurança e tem sido o elo de meus dedos com os pés dos fãs. Eu vibro em uníssono. Preciso que o ritmo surja das entranhas da bateria. O primeiro toque da baqueta na pele da bateria é o mais importante. A primeira nota na cabeça do tempo que sou obrigado a tocar tem que ser um veludo. O violão é o tempero. A interação do baixo com a bateria é conhecido pelo nome de swing. Com swing, com tudo. Sem swing, sem tudo. Aliás, swing hoje é também uma prática sexual coletiva, consensual e faz parte do imaginário popular. Eu acho que tocando baixo sou capaz de fazer uma pessoa gozar. Não tenho sentimentos e emoções guardados quando estou tocando. Não fico raciocinando também. Mas na hora H, quando o ritmo se perde em nosso medo, falta de preparo e falta de concentração, quando tudo está quase dando errado, a luz! Uma música ótima para reunir a energia que perdemos em nosso medo. Pois bem, eu não vascilo. E se vascilo, ninguém vê. Silêncio.

quarta-feira, junho 07, 2006

A Iinfluência de Coltrane em meus neurônios cheios de saudade!

A Maioria dos excelentes discos que eu já ouvi e ouço, porque já me acostumei a idéia de que bastam cem discos para você saciar toda sua fome de música, tem como figuras essenciais ritmistas, os quais eu admiro tanto que dói. Me lembro de quando eu era uma criança e as pessoas queriam ser guitarristas, solistas como Stevie Vai ou Joe Satriani, tocar uns rocks velozes como os do Megadeth. Pô, os três primeiros discos do Metallica o meu irmão mais bonito tem, eu já ouvi muito tudo aquilo e acho autêntico pra caralho, mas não é a minha música preferida. Mas lá nos idos de 92 o que pegava em Brasília era o Metal, não esse metal Massacration que de tão bom me dá uma certa nostalgia a lá Mamonas Assassinas, esta sim, um fenômeno do excraxo ridículo, que salve-se o Premeditando o Breque, coisa sensacional e marcante de minha infância, e os músicos da época iam ter aulas na Musimed com o Parente e com o Fred. Eu mesmo fui aluno por dois meses do Fred, mas algo chamado dinheiro, depois a preguiça de andar de ônibus duas vezes por semana com o baixo no lombo me fizeram acreditar que eu era capaz de aprender a tocar baixo sozinho. Foi a melhor decisão que eu já tomei na vida. Me guia até hoje por qualquer caminho. Tocar a vida sozinho. A raça mais difícil de encontrar pra fazer um som legal é baterista. Na época tinha o César Borgatto, eu achava ele um baterista de merda, mas adorava as técnicas que ele usava pra tirar um som. Eu pensava “preciso de um Borgatto mais porra louca, mais novo e que não seja careca!” Tinha um fenômeno da bateria chamado Maurício, um desses talentos genuínos que o pai apoiava porque é assim que um pai tem que agir. Tinha 13 anos, tocava Pink Floyd, Led Zeppelin e tinha pratos Zyldjan, todos. Aquilo me motivou. Eu tinha 16 anos, era mais velho, mais pobre e não tinha apoio algum em casa pra levar música a sério. Por isso mesmo que um baterista sério seria a chave para que uma banda desse certo. Se fizesse os meus pais rebolarem o jogo estaria meio-ganho. A outra parte, é claro, era a escola. Sempre ensaiei em casa com meu irmão gêmeo e o meu irmão mais novo ensaiava com a banda de rock psicodélico dele. Tinha um menino canhoto-guitarrista chamado Filipe, o cara mais talentoso que eu já vi tocar guitarra e, com um detalhe, com o coração. Ele era o hendrix, pra mim. E é sério quando eu digo que ele era o HENDRIX. Canhoto, solista e compositor e extremamente livre dedilhando sua péssima guitarra, uma Jennifer Strato. Que guitarrinha ruim! Mas o menino era fantástico e motivava todo mundo, eu e a minha banda, a banda dele todinha, meus pais e a vizinhança sentava na varanda, um dos meus vizinhos fumava um e ficava ouvindo a gente tocando The Beatles, Nirvana, Smashing Pumpkis, The Pixies, Led Zeppelin, Rolling Stones, Mutantes, Raul Seixas, The Smiths, Pink Floyd e todas as nossas composições. Era o nosso Woodstock porque, pra melhorar tudo, tinha platéia feminina. Isso era um hábito desde que eu me entendo por banda. Minha primeira banda, os The Sounders, tinha esse apelo feminino. A gente convidava as amigas da escola pra ir ouvir a gente ensaiando The Beatles, Raul e Roberto Carlos, tomar banho de piscina. Todo Sábado na casa do James, onde começou a minha crença de que toda banda boa não ensaia em estúdio pago. Pagar pra tocar dói muito! O menino Hendrix-Filipe foi a excessão sobre guitarra que eu já vi. Ele explodia ao vivo, solava muito bem e tinha espírito, um feeling pro bom gosto da porra. Meu irmão gêmeo é outro excelente guitarrista porque sabe criar harmonias que cantam, dobram a voz. Isso, depois que eu descobri o Jazz, é a coisa mais linda a se fazer em uma música. E se o guitarrista for bom, a magia fica rock n'roll. Tanto que os quartetos de Jazz mais famosos do mundo NUNCA tiveram um guitarrista. O baterista que tocou comigo durante anos era musical, esforçado, mas era uma merda. A minha mãe costumava dizer que o esforço que eu colocava individualmente e na própria banda era desequilibrado, superior ao dos demais integrantes. Na época eu achava isso um absurdo, mas hoje eu dou razão a minha mãe. Todos os dias eu e o Breno tocávamos de manhã, antes de ir pra escola, de tarde, de noite. Todos os dias, mais os ensaios de Sábados e Domingos. E, no fundo, por ser autodidata, eu via que me desenvolvimento musical era lento, progressivo e estiloso. Uma coisa eu aprendi. Ninguém toca como eu. Ninguém mesmo. Já me convenci que uma das razões pelas quais eu apoie o experimentalismo em todos os sentidos é o fato de que a auto-influência somada a convivência com o meio será capaz de dar instrumentos para que cada um seja bom naquilo que se dedica. Meu colega baterista era baterista de final de semana. Pra mim isso nunca bastou. Quando eu entrei no Maskavo eu percebi que tinha muita coisa a aprender sobre baixo. O reggae estava em minhas veias, mas não nos meus dedos e no meu coração. Com o Prata, com o Quim e com o Marceleza eu pude extrapolar, dar vazão a um coisa que eu sempre admirei no contrabaixo: a capacidade instrumental de poder ser um instrumento melódico e rítmico. Nas minhas experiências e músicas anteriores eu conseguia, de uma certa maneira, ser melódico. Mas o rock, em si, faz o baixo parecer muito mais um som profundo e presente do que pontuante e misterioso. James Jamerson, Jimmy Garrison, Sting, Andy Rourke, Peter Hook - o cara do New Order - , Geddy Lee são alguns exemplos de contrabaixistas que iam além do instrumento e de suas limitações. Um instrumento de 4 cordas muito elegante, inclusive. O reggae, com Aston Barret e Robbie Shakespeare, pra mim não seria nada sem Carlton Barret e Sly Dunbar. Os dois melhores bateristas do MUNDO! Tem uma caralhada de caras bons no rock, Stuart Copeland, John Boham, Mitch Mitchell, etc, mas esses dois jamaicanos deram o toque final que mais influencia as batidas de dance no mundo hoje em dia. O Raggamuffin, o DanceHall, o Funk, o HipHop, o Rap, o Reggae, o Rock. Eis que o up-down beat do reggae dominou o mundo sobre a forma de uma quimera, uma Hidra de Lerna de 200 cabeças. Mas ninguém se pergunta de onde vem e pra onde vai o reggae? Eu me pergunto todos os dias porque eu gosto tanto de reggae e de jazz, afinal são músicas genuinamente mestiças, como o forró, o baião, o xaxado, o bumba-meu-boi, muitas outras que eu não conheço. Aprendi a gostar de músicas dos orixás, a música da Bahia antiga e mística e brasileira, da música chamada Bossa Nova e estou aprendendo violão. Que instrumento bonito e charmoso. Se tiver um bom percussionista, então...

A Morte

A Morte não é exclusiva e nem é o fim. A morte é como o selo de uma carta
que você quer enviar para uma pessoa distante. A morte, enfim, é um meio de
vida e de sentir que existe vida em tudo. Em uma sociedade dominada pela
rapidez da informação, está cada vez mais difícil digerir o que é real e o
que é apenas notícia. Está difícil dicernir o que é volátil e o que veio pra
ficar. A sociedade civil, de professores, médicos, policiais, músicos, vive
nas cidades com aquele medo de ser assaltado, medo de perder a namorada,
medo de não ter dinheiro para comprar fraldas descardáveis. Medo de quase
tudo que não se tem poder. Mas ninguém pode com a morte. A morte é o cessar
da vida, do coração, mas não da memória, da lembrança, da saudade e das
referências e influências que as pessoas, em vida, legam aos seus
familiares. Por isso ter filho, como a natureza sabiamente ensina, faz parte
do ciclo da vida e da morte.
Uma morte acidental, um assassinato, é muito sério. É brutal para a família
e para os amigos. É brutal porque fere a natureza e seu ciclo perfeito. Fere
porque geralmente acontece, um assassinato, por causa de inveja,
má-educação, por causa do excesso de materialismo a que somos submetidos. As
expectativas de um jovem são rasas e muito pouco criativas. Faculdade é bom,
mas pra que? Posso ser morto, assim como uma menina em São Paulo, pelo
namorado no campus da Universidade pública. Posso ficar rico e famoso e
tomar um tiro perdido na frente de uma boate, assim como aconteceu em São
Paulo no final do ano passado com um conhecido, posso estar dirigindo e ser
fuzilado porque não quis parar meu carro. Putz, ser conivente com bandido já
é a melhor maneira de não morrer em uma cidade. Abre-se mão do que se chama
segurança por uma casa em um condomínio fechado. Mas seu vizinho pode ser
ladrão do colarinho branco. Qual a diferença afinal?
Pra mim a diferença são as prioridades. Se o que fizeram no Rio de Janeiro, uma
tentativa de assalto contra uma família, onde uma das pessoas era o músico
dos Detonautas e amigo, Rodrigo, onde deixaram o carro baleado, o menino
morto e seu irmão ferido, não fosse algo que me aproximou da morte, então
continuaremos todos cínicos e silenciados pelo medo e pela incapacidade de
reagir a algo tão violento, mas que parece real nos noticiários, jornais e
bate-papos de boteco.
A guerra precisa acabar dentro de casa. Normalmente é assim que acontece a
primeira morte: a morte do bandido.



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sábado, maio 27, 2006

Meu olho doeu!

Eu fui chamado outro dia de bucólico pós-moderno. Não entendo o significado de nada que seja pós-moderno, até porque meu amigo mais poeta de hoje em dia sabe muito bem que a pós modernidade é apenas uma análise inferior da já atualizada hiper-modernidade, sociedade de consumo infinito que não tem parâmetros pessoais para saber se tem por necessidade ou por não mais diferenciar o necessário do que é supérfluo e neuroproduzido pela ignorância e desejo se perde nesse tempo.
Fui olhando por aí até que meu olho doeu. Como se eu visse meu retrato de 1994, atualizasse uns 15 quilos e depois colocasse ao lado a memória brasiliense do canal arte. Eu não tenho mais nada a perder senão um ou dois neurônios. O choque, eu sinto ele como um implulso elÉtrico em meus cabelos. É a minha inteligência e a minha consciência dizendo "use seus olhos para olhar fixamente um ponto qualquer que se reproduza no nada, um ponto de luz" e eu olharei meu filho. Coloquei a foto dele colada em meu peito para que todos os dias eu possa ficar com ele. Estou desperto neste sonho elétrico em vibrações ultravioleta e sonoridade ruidosa, minha mente cessa e não quero mais parar de não mais pensar e deixar de estar por aqui. Um sonho apenas se torna realidade quando deixa de ser apenas uma reflexão interior e passa a ser olhado por observadores críticos e impessoais. Mais um choque na cabeça e meus cabelos ficaram como arame farpado. Já basta de tantas lembranças. Meu amigo poeta diria que divaguei, mas tenho certeza de que no subliminar existe, com certeza, uma boa história de ódio entre amigos, uma inimizade extrema em tons negros e a saudade de não se importar com o que não tem solução. Enfim, eu não sou muito fácil e ninguém é, em suma. Silêncio.

quarta-feira, maio 17, 2006

Expor-se como uma cicatriz - Ópus, o pus, depois

Faz tempo que eu não tenho tempo para expor tudo aquilo que tenho observado. Ou seja, estou como a cachoeira da fumaça duas vezes por ano. Resolvi abrir um pouco a torneira da minha mente, desanuviando um rio de emoções que se afloraram com o nascimento do meu filho. Seu olhar quase não se fixa ao meu. Tudo para ele é novidade inclusive eu. Mas minha voz ele conhece, sabe que é a voz do conforto, de um homem que beija, beija e faz prrrrrrrrrrr na barriga dele, beija os pezinhos. Daí, depois de tanto beijo, um carinho apertado para que ele arrote. Fico criando melodias durante este tempo, uma letra pra ele, quem sabe um tema musical. Esta noite sofri pois estive cantarolando uma excelente melodia abraçado com minha mulher e filho. ´Nem me atrevi a decorar, deixar de dormir com eles, para fazer a música. Sei que ela, a melodia noturna, está comigo e se escondeu-se, aparecerá!
Fui tocado por uma maliciosa vontade de vencer. É necessário o carinho para que tudo isso, viver, não seja em vão. Escrevo velozmente e feroz porque não posso ficar. Meu filho só tem olhos pra ele. E eu também. Silêncio.

quarta-feira, maio 03, 2006

Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar...Rir pra não chorar - Cartola

Na medida em que os anos passam e aquela história de vida começa a se tornar, ao invés de um conto ou um filme, um livro é bom avaliar o peso e a qualidade das coisas mais importantes. Na medida em que os anos conjugam distância e proximidade, saudade e memória, amor e ódio é também possível avaliar se estamos ou não bem acompanhados nesse livro.
A história da amizade é muito antiga. A amizade fraterna, essa coisa moderna em que dois ou mais indivíduos são amigos por interesses comuns, já era. Quando os gregos sentiam amor pelo amigo, eles viravam amantes. Rumi, o poeta místico, também encontrou em um amigo sua alma gêmea, o então Shams de Tabriz. Existe a inesplicável natureza dos irmãos gêmeos univitelinos e a relação de amizade que ela forma: é intensa e amorosa. ´
Os anos passaram para mim com velocidade zero e de tão vagarosos permitiram que certas facetas dos outros indivíduos fossem muito bem observadas por mim. Isso implica dizer que eu sabia dizer, desde criança, se uma pessoa era ou não um bom amigo. Mesmo que meus pais não gostassem dele. Mesmo que ele fosse mudando de um bom amigo para um péssimo amigo, eu conseguia enxergar a linha tênue entre o infinito fraterno e a amizade passageira. A maior revelação de todas foi entender que para ser um bom amigo eu tinha que virar amante de mim mesmo, aprender a ser sereno para poder doar e receber o que é fundamental em uma amizade: amor.
O amigo não pede; o amigo senta ao lado do silêncio e morde como um leão frente às mazelas que aflingem suas amizades; o amigo sabe aconselhar; o amigo reconhece quando erra; o amigo não abandona o amigo; o amigo pensa em seu amor pelos outros; o amigo divide a alegria e a tristeza na mesma sintonia e medida que divide cerveja, dívidas pequenas e namoradas; o amigo troca uma mulher para não chatear o amigo. E talvez aqui eu coloque um parênteses. O amor que sentimos pelo amigo e pela amante pode conflitar porque o amigo as vezes não quer saber de ser amigo da amante do amigo, sacou? As vezes a amante acha que o amigo é uma influência ruim; na maioria das vezes o amigo tem a razão. Mas as exceções existem para colorir o ciclo das rotinas. Amigo não faz fofoca; amigo chora e o outro chora junto.
Muitas vezes acontece de você se tornar amigo da sua amante. Isso é uma situação ideal e muitas vezes ela eleva muito a qualidade da relação amorosa entre duas pessoas porque o amor delas jorra como uma fonte inesgotável. Isso gera inveja porque todo mundo quer viver assim.
Voltemos à antiguidade e assim veremos que no começo dos tempos homens preferiam bichos aos homens para serem amigos. Amigo do gato, do rato, do camelo. Pois se havia divindade nos animais era melhor ser amigo de Deus do que dos homens. Na Pérsia existe um ditado que diz:" Visita é como peixe: depois de três dias começa a feder." Moral da história: amigo é peixe que nunca fede! Silêncio.

sábado, abril 01, 2006

Agenda mental

Eu conheço uma pessoa que tem uma das vidas mais confusas que eu já vi. Porque tudo o que essa pessoa escolheu pra ser, viver, deu errado. Cada decisão parecia ser à luz no final do túnel ou a descida para um enorme buraco. Geralmente, atolado na escuridão, João Pessoa se comunicava consigo mesmo para encontrar Deus ou uma escapatória para seus pensamentos, tantos pensamentos irreais, que só deixavam-no tonto. A última coisa que tinha dado errado era um negócio com materiais de construção. O que adiantava ter uma idéia brilhante, pois todo mundo precisa construir e ter onde morar, um teto fresco e de alvenaria de preferência, se todo mundo só queria viver em barracas de lona? João Pessoa se viu pobre demais com 45 anos de idade. E junto com sua pobreza tinha mais de milhão, milhão de outros miseráveis sem fortuna ou sorte que rumavam todos num zigue-zague sem destino pelo país em busca de algo pra comer e um trabalho que fosse real e cansativo. João Pessoa teve filhos. As meninas todas já casadas não falam mais com ele, foram embora cada uma com seu marido e uma mágoa muito grande com ele por causa de Fulô, sua mulher, a décima que teve, que espantou todo mundo de casa com seu mau humor, fedor e péssima culinária. Foi a única mulher de João Pessoa que não morreu. Ele que sofreu. Fulô dava chifre no velho quase todos os dias porque tinha muito fogo na barriga. E cada bimbada que ela dava era como colocar mais lenha naquele corpinho de 30, fogueira que o João Pessoa mandava ver pelo menos uma vez ao mês e só. Fulô era uma branquela gorda com os dedos amarelos que tinha os peitos mais lindos do mundo e só.
Quando os meninos de João Pessoa cresceram, cada um virou algo ruim. Jogador, gigolô, vagabundos, um deles virou bandido e estava preso por roubar uma mercearia. O filho de João Pessoa roubava por fome. E nenhum deles conseguia ajudar o pai com algum trocado ou coisa parecida e a vida dura na casinha de chão só tinha sentido porque o coração daquele velho era muito forte. Quando se tem um coração sofrido daqueles, a esperança é a última coisa que morre. Fulô fugiu um dia e deixou o velho com uma dívida no bar de uns R$67. Mais uma pra ele. Dono de um famoso gancho de direita, João Pessoa tinha sido boxeador amador no clube Remo, em sua cidade. Lutou e treinou feito cão e adorava tomar pancada na cabeça. O Boxe e o treinador Celso foram os únicos que deram comida e banho pra ele. Cada pancada na cabeça era um alívio. Depois do treino tinha um prato de arroz com feijão, pedaço de carne e batatas. Uma delícia pros punhos! E o treinador não fazia rogado. Levava João Pessoa pra comer uma puta ou tirar uma casquinha com seu Kharman Guia.
Com 38 anos de idade perdeu um dedo de cada pé. Estava olhando um avião no céu, aquele pássaro do futuro com barulho de pum elétrico, em cima de um cavalo emprestado. O cavalo viu uma cobra e deu um pinote, João Pessoa caiu e o cavalo pisou cada dedo com cada casco, uma dor indescritível com o esmagamento dos dedos e mais uma hora de viagem a cavalo até chegar no pronto-socorro. Sem os dedos dos pés João Pessoa conseguiu uma aposentadoria por invalidez que ele nunca recebeu.(Para todo efeito o soldo dele está nas mãos de algum filho da puta rico que desviou dele e de mais uns 40 beneficiados uma aposentadoria de R$200.). Quando tinha uns 19 anos João Pessoa teve o ânus perfurado depois de descer de um caminhão de cana e tropeçar em uma pedra, acionar sem querer o motor da trituradeira de caldo e fazer o toco de cana entrar com tudo no seu fiofó, aquele toco que sobra sempre pros azarados.
Pensei em mim, em como minha vida é boa e os maus pensamentos foram embora. Silêncio.

terça-feira, março 21, 2006

Diga-me como será a vida sem o seu amor! - 21/03

A fumaça e o perfume do incenso pairam no ar. Plural mistura com o tabaco que exala de meus pulmões e narinas. Me prendo nas idéias que estão comigo no agora. Cuba, charutos, meu filho e minha esposa, a música de Ravi e Coltrane, tudo isso chegará ao encontro definitivo do ser. O silêncio me veio como um desejo indesejável por entre os vácuos do meu pensamento. A música misteriosa que toca em meu coração é um tema da Índia, um tema que só me traz notícias sobre nascer e viver. Minha Nanah é o tema que leva a sinfonia, a harmonia que gera o que chamei de risco, meu risquinho. Hoje é meu aniversário e talvez o silêncio seja apenas uma palavra que eu goste, mas goste tanto de escrever que eu recorro à sua idéia de estar presente tanto quanto me ocorre a idéia de não-estar nem aqui.
Tudo na minha vida tende a se tornar um exagero do auto-controle. O limiar da sanidade e da revelação, da tarefa diária que é sofrer por sofrer e não duvidar daquilo que viaja além do que pensamos achar certo ou visível é minha forma de rebeldia. Pois sou um filho que pretende ser um pai com algo para doar além do amor incondicional e da paixão que me incendeia todos os dias desde que vi Ravi em meus sonhos. Estou procurando um poema não escrito mas que urge para ser recitado. Estou ouvindo uma composição especial de um mestre maestro para um mestre espiritual roqueiro e os tambores se misturam às cítaras e ao som do violão de outro deus da guitarra. O que significa mantra? Quantos mantras estão presentes em uma cítara ou em um violão que ainda não foram tocados?
Existe uma forma de vencer o jogo da vida na forma de algum filme com efeitos especiais ou de algum livro de auto-ajuda mais em forma de romance do que na forma de um guia. Existe um jeito de ouvir música que ultrapassa os limites do tempo, das notas em si para que o espírito da música preserve sua natureza e encante o momento em que toca. Muitas vezes dirigindo pelas ruas de São Paulo me flagrei ouvindo a rádio de rock clássico cantando canções super relevantes aquele momento. A última experiência foi a pouco tempo dirigindo depois de levar meu irmão mais novo ao trabalho. Na volta pra casa da minha avó tocou Riders on the Storm, The Doors, e Subdivisions, Rush, em seqüência e o programa era montado baseado em emails de gente como eu, fã de música. No carro, cerveja ao colo e um sentimento, uma emoção enorme de saudades de casa, me levei a flutuar pelas avenidas, pontes, ruas e overdrives de Sampa. Gosto muito de lá quando é noite para dirigir e apreciar as luzes.
O incenso passa da metade e invade a sala e uma parte da cozinha, progride em sua essência pelo corredor da casa, aromatiza um pouco cada quarto e depois se dissipa pela janela até virar um fiozinho para o vizinho. Um fiozinho une muitas coisas aqui na minha casa tamanho é a paz que alcançamos depois de desatarmos muitos nós pesados da existência terrena e da experiência que é envelhecer junto de alguém e manter jovem a essência daquilo que chamo amor. O Amor. A amizade é um arame farpado em todos os sentidos e fere, machuca e só existe se for feito de um excelente material humano onde o ferro dos arames é de parar touro de quinhentos quilos. Tenho uma queda pelo existencialismo de Nietzsche mas já superei muitas das suas cruzadas sem nem mesmo tê-lo lido até os vinte e seis anos. Hoje eu sei disso mais do que ninguém e faz parte de SER saber coisas que mais ninguém sabe ou entender de si melhor do que qualquer psicólogo ou santo poderia entender. É uma cruzada no sentido menos católico possível, seria mais uma palavra cruzada para tirar a atenção do que é realmente importante.
Para mim é importante a presença em tudo, como tocar o horizonte com a ponta dos meus dedos ou dedilhar trezentas notas por segundo e deixar que as emoções e meus pensamentos diluam-se em nada mais do que impulsos elétricos inócuos em meu corpo. Onde o que é importante na alma é deixar de lado a Matrix e as lendas da Idade Média, deixar de ser a bateria a ser consumida, e transmutar para um filtro infinito de energia potencial, doadora e limpa energia, passando de objeto vampirizado à hidrelétrica da Vida. Para isso é necessário encontrar o Rio da Vida, e minha vida tem um rio e agora está produzindo e renovando a energia do lar sem danificar ou prejudicar a natureza, famílias, sem reciclar pois não sou poluente e fluindo com o terreno, uma hidrelétrica invisível adornada por Jequitibás.
Já é metade da manhã e a música deixou de contrastar com o ambiente. O incenso acabou e remete ao finit; o agora tem outro sentido, é hora de voltar ao trabalho.

A vida do brasileiro está submersa em taxas, notícias repetidas de problemas sociais e sobre o debate da educação para desenvolvimento humano no plano da diminuição da violência e propagação da mesma nos mais interioranos recantos do Brasil. Foi atravessando a ponte que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este, uma ponte enorme que cruza o rio Paraguai tomada por carregadores, sacoleiros, carrinhos de mão, motos das mais diversas origens e vans que me caiu uma ficha. Uma ficha que caiu para mim como uma luva para o médico cirurgião, uma ficha sobre pobreza e miséria e consumismo na fronteira humana, fronteira entre o que é o Brasil e o que é o Paraguai. O Brasil, de acordo com a irmã de um grande amigo, é o produtor da raça mais trabalhadora da América. Ela disse que, em se tratando de horário, os brasileiros são pontuais; em se tratando de idéias, somos práticos. Em se tratando de beleza; únicos; e em se tratando de educação, honestos. Poxa, um povo honesto e educado que vive desejando Educação. No Paraguai, entrei em contato com outro tipo de gente? Nada disso. Tirando o assédio intermitente de ambulantes pelas quadras de Ciudad del Este, tirando a pirataria igualmente exposta nas ruas como nas do centro de São Paulo, tirando a educação de todas as pessoas que me atenderam, o Paraguai me mostrou uma imagem comum de gente trabalhando, andando pra lá e pra cá, mostrando um enésimo de seus verdadeiros talentos e comercializando sonhos materiais voláteis. Me vi repetindo cenas de filmes, de comerciais, de outdoors, uma imagem horrorosa da realidade e desejo seriamente que as coisas melhorem aqui no Brasil. Os juros só precisam abaixar. As taxas e impostos também. O valor do dinheiro real tem que ser Real. O dólar 2x1 é uma mamata se um barbeador custa 60 dólares ou um aparelho de Dvd 50 dólares e um perfume Givenchy 45 dólares. A riqueza material só tem sentido se a Educação almejada for alcançada.
Com o governo Lula a classe média brasileira pagou calada pelo desenvolvimento social que é a única forma de mudança real da mentalidade brasileira. O que chamam de pobreza e miséria não diminuiu no país, o nível de violência também não diminuiu. Ou será que as notícias já não são mais notícias? Falta ao governo uma mudança estratégica para o desenvolvimento. Minha dica é usar dinheiro privado ao invés de ficar leiloando concessões públicas para movimentações financeiras seguras no país. Esporte, Educação e Saúde podem e devem ser estatais financiadas por indústrias de peso, empresas particulares com interesses reais nestas áreas. Dinheiro para educar e cuidar e salvar. Usar impostos para gerar altos orçamentos é o buraco negro do Brasil. E os gringos torcem muito pra que nós falhemos, mas não é possível que deixemos isso acontecer. E a classe média brasileira está enfraquecida com a idéia de ir embora, ganhar em euros lavando pratos enquanto os estudantes franceses lutam por empregos mais seguros. A classe média está enfraquecida porque não consegue andar pra frente. E se a classe média sofre muito é nela que estará o motor de uma eminente mudança popular. Vide a história da Inglaterra, França, EUA e agora da Índia.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O Reggae e o Underground. Como ter evidência sem vender sua identidade?

Ainda não rolou com o Reggae o que aconteceu com o Rock ou com a Bossa Nova. O Reggae, como estilo musical e estilo de vida, continua muito próximo de suas raízes ideológicas.
Muitas coisas contribuem para isso. E o Brasil tem em si tudo para que não mude por muito tempo.
A idéia do profissionalismo musical já é algo que dói nos ouvidos de quem tem ideologia radical sobre viver de música, se comprometer com a mesma e com sua banda. No Brasil, na cabeça de quem não está em uma gravadora ou fazendo shows semanais, se vender é tocar no radio ou assinar um contrato de 3 anos. Se vender é tocar na televisão ou abrindo shows de outros estilos musicais. Não há espaço para radicalismos nem para “rixas” entre bandas.
O que chamo de underground no título do texto é a idéia de existência de um circuito forte musical e de cultura que margeie a industria atual. Música comercial é um termo que se tornou pejorativo porque mistura o que é feito para massificar e vender um título ou artista plástico, com artistas de carreira e bandas emergentes. O intercâmbio é a primeira arma do underground. Intercâmbio de música, de bandas, de zines. O Reggae esbarra ainda no seu isolamento artístico no Brasil. Felizmente, esta situação tem mudado porque algumas pessoas e bandas já notaram que viabilizar shows, o que é o caso do underground, faz mais pela música do que tentar entender porque é a Kelly Key e não a sua banda que esta na MTV.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Verdade, vontade, crítica do amanhã - Hoje é que é importante.

No auge de períodos nebulosos que coincidem mais ou menos com o começo deste século os fenômenos naturais se confundem com as trevas do pensamento humano. É fato que os heróis já não mais fazem parte deste mundo. É fato que não fomos capazes de viver em harmonia prodigiosa com o que chamamos de natureza. A comunhão que os povos americanos, africanos e asiáticos tinham com o solo, com as plantas e com os animais, de onde tiravam tudo que precisavam sem depredar ou gerar inveja entre eles, foi literalmente enterrada nas profundezas do pensamento antropocêntrico e das idéias iluministas e positivistas na busca pela razão, por uma verdade. Tal verdade vem sendo usada como desculpa para que nações invadissem nações, para que a exploração do meio ambiente tivesse uma finalidade humana, para que a escravidão pudesse, enfim, fazer parte da racionalidade do homem.
A verdade se tornou, para todos os fins, uma forma evidente de inclusão social, depois se tornou o muro das lamentações, o chicote da religião católica, o diálogo dos filósofos que buscam uma verdade universal e a desculpa para que a independência do homem fosse soterrada pelo desejo de existir individualmente. A verdade virou uma cruzada em busca de seu cálice de libertação.
Para todos os fins, povos dotados de grandes habilidades morais foram dizimados e uma nova realidade, o chamado livre-arbítrio, foi entalhado em nossos corações para que justificásse nossa falta de vontade de mudar o que está errado. Quem enxerga além do que vê sabe muito bem quais vertentes de maldade se formaram depois do renascimento europeu, das idéias cartesianas ambíguas que amparam até hoje o pensamento ocidental, que está impresso em nossa bandeira como “ordem e progresso” de forma que nos engana, nos ilude, nos faz menos do que europeus.
Não bastando a importação de valores que estupraram as almas que aqui já existiam e as almas que foram traficadas para cá, somos obrigados a deserdar nossa identidade em formação. Ser brasileiro e falar o português, ter vontade de beleza como nossos índios ancestrais ou saber a genealogia que nos formou, saber que nossos algarismos numéricos são de origem árabe ou que o Brasil é o mais influente país latino do mundo não basta?
Recebi um email dos mais incomuns outro dia. Era do auto-proclamado fã número 1 do Maskavo. Dizia para que olhássemos o mundo a nossa volta com novos olhos, para que almejássemos ser algo que ainda não somos, para que abandonássemos o reggae e virássemos uma banda de rock porque merecíamos o reconhecimento de bandas como Skank e Jota Quest que fazem a festa do povo, que tocam em todas as Fms, que são conhecidas nacionalmente. Pensei no plano que o coração deste fã bolou durante todos esses anos para nós e cheguei a conclusão de que ele não sabe do que está falando.
Se fosse pelo sucesso que ele nos deseja, eu preferiria ser a banda Calypso ou uma dupla sertaneja, que não dispensam a pitadinha de Brasil que existe em nosso sangue e tocam uma música divertida, sincera, que não existe em nenhum lugar do mundo. Uma música brasileira de verdade, então. O rock, infelizmente, é coisa de gringo e até o rock nacional carece de uma nova adequação pois qual a diferença do Skank pro Oasis? Eu diria que a diferença é gigantesca, mas a comparação é uma tremenda bobagem. O fã brasileiro não é fã de música feita no Brasil. Assim como a escravidão, a cultura também foi usada como forma de dominação dos povos. Alexandre, o grande, que o diga! Se for pra tocar algo que realmente seja 'sui generis”, eu faria do Maskavo uma banda de Bossa Nova como nunca existiu. Pois o que é uma crítica sem pé-nem-cabeça do fã é, na realidade, a metade da verdade. E o Maskavo não pertence a essas tendências pois elas vem e vão, como os anos, os verões e as tempestades. O Maskavo não é uma banda heróica para salvar a música brasileira também. Mas se nos rendermos ao rock é porque deixamos de lado muitas das mensagens que pregamos. E se o reggae não é do Brasil, diga isso pro Gilberto Gil que fez alguns dos mais belos reggaes do mundo. DO MUNDO! Mas como ministro da cultura fez do Maskavo mais uma banda que só existe em seu próprio nicho, trilhando espaços obscuros dentro do território nacional, sem o devido reconhecimento por seu trabalho e que assumiu como compromisso manter-se fiel, não ao reggae, mais a música feita no Brasil. E pra quem tem dúvidas sobre o reggae é só ir na Jovem Pan ouvir a versão de “Pra não dizer que não falei das flores”, do Geraldo Vandré, tocada pelo Charlie Brown Jr. Se for pra ter um sonho, eu gostaria de ter escrito músicas como aquela e que o povo quisesse e tivesse a mesma vontade de beleza dos nossos antepassados índios. Acho que os índios iriam gostar de Maskavo, no final das contas.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Alguém para meditar - Extemporâneas n#3

Eu já não sei mais o que é acordar sem estar alerta. Aquele sono profundo que existe dentro de mim foi trocado, deu lugar a um outro tipo de sono perceptivo que não abre mão de estar onde está, na hora do sono ou não. É impossível descrever o que sinto ao acordar mas é fato que o grande monstro da minha vida é a dificuldade de vencer as limitações do pensamento ocidental em um contexto amplo e espiritual.
Mas o ocidente tem seu lado espiritual vivo na presença de algumas civilizações indígenas no Brasil, no pacífico americano, os mexicanos e os peles vermelhas norte-americanos, os esquimós e toda a mestiçagem oriunda das forçadas ocupações populacionais do continente índio. Onde está em mim, em nós, o índio negro europeu que se perde a cada minuto na busca pelo dinheiro e pela materialização do inócuo? Onde estão as raízes de Mali, Yorubá e Macro-Jê que permeavam a vida deles aqui na América e na África a quinhentos anos atrás?
De tal forma a imagem renascentista de que Deus veio parar aqui na forma de um homem barbudo e que salvou-nos bastou para que pessoas menos afortunadas se acostumassem a rezar de joelhos pedindo para serem libertos de sua culpa. E ainda vivendo almejando e contradizendo seus votos pela simples troca da indulgência, do remorso ou dízimo. Não me sinto pronto a excluir de ninguém seus pecados ou de suas individualidades fazer partir a luxúria e o ódio. Me sinto apenas observador do período mais decadente na escala védica dos tempos, do período que chamam de apocalipse, da paródia que é ver o mar ferver e o céu pegar fogo.
A força que insiste em me dizer que o espiritual ocidental, o carma do brasileiro, é encontrado no elo entre sua origem devastada e remanescente e a que tomou o seu lugar dorme em meus sonhos. Se veste de lagarto, de coruja ou bem-te-vi e de cachorro. Fica imóvel como uma pedra e é leve como as nuvens. Dorme e pede para despertar. Por isso eu medito. Mas medito muito sozinho.
Aprendendo a não temer a morte e aprendendo que a cidade, ou as cidades todas, tem em si estruturas que me atolam nas contas, nas prestações de contas e ser um número, vários números e códigos e senhas, um dígito entre os milhões de brasileiros percebi que eu estou procurando a minha religião nos olhos do povo, na música que ouço nos velhos lps. Encontro a resposta as vezes para perguntas que assolam minhas teorias. As vezes eu não entendo bulhufas do que estou sentindo. Daí eu procuro dialogar com amigos, perguntar coisas que só fazem sentido pra mim neste contexto onde um quebra-cabeça é a mais perfeita forma de analogia.
Juntando as peças eu formo uma imagem do presente que me dá um certo nojo. Mas sou otimista com relação ao futuro pois o futuro me reserva um bebê que me dará o direito de amar incondicionalmente até quando a corrente aguentar. A corrente é o tempo. Minha mulher é meu oceano. E eu gosto da praia. Obrigado.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

A Fúria!

Talvez eu esteja envelhecendo sem deixar de acreditar nas mesmas teorias da minha juventude. Eu que acredito em tantas coisas antigas não ouso desafiar o poder colonizador de idéias. A capacidade do ser humano de se adaptar ao que lhe é mais favorável e cômodo não tem um final feliz na minha cabeça. Eu que vou ser pai estou na busca pela identidade do meu bebê. O que ele vai ouvir de mim senão reclamações? E de minhas atitudes o que virá senão a fúria? Pois bem. Tenho certeza de uma coisa: quanto mais velho eu fico, mais merda eu sou forçado a ouvir. Claro, eu não sou inocente ou puro o suficiente pra não merecer ovações ridículas sobre música brasileira, cantar em português ou se eu sei algo sobre o reggae no mundo. No fundo, eu só quero fazer perguntas e ouvir respostas. No fundo, eu quero ver o oco de quem passa pelo meu caminho. No fundo, a ignorância tem que ser atacada ao invés de ignorada porque é profundo e triste o caminho de quem "acha", de quem vive do "e se" ou de quem não sabe responder perguntas diretas e bem formuladas. A raiva e a falta de educação geralmente prescedem a desinformação ou a culpa. Eu não sinto culpa.
O passado é o calo dos idiotas. Como postulou Einstein, nosso passado é congelado pela vivência do presente, esquecido no tempo pelo gelo e praticamente impossível de ser atingido pela matéria humana. No mundo dos sonhos vive o passado. Quanto mais atrelado ao passado fica o ignorante, mais desatualizada fica a sua existência. Eu convivo com muitas pessoas desatualizadas. Mas pior do que isso, eu convivo demais com pessoas que não são interessantes ou que não se interessam por nada relevante. Assim me torno outro gênio do desinteresse geral pelo todo. O que é o todo?
O idiota é a pessoa que admite saber algo mais sobre qualquer assunto sem que ele tenha sido aprofundado em tese ou em um evento informal, uma conversa de bar. O idiota fala de maneira enriquecedora sobre a importância de viver sem se esforçar, sobre não saber tocar um acorde no violão para a namorada. O idiota se sente à vontade quando não sabe que está falando merda.
Eu não sou advogado. Talvez eu tenha repentes de idiotice e isto seja fundamental para eu me distanciar dos idiotas de plantão ou dos vagabundos que se aproximam de mim e da minha família. Quem são os vagabundos?
Vou meditar. Obrigado!

quinta-feira, novembro 17, 2005

Emoticons e Kibon - A americanização do Brasil - Extemporânea #2

Sempre fui defensor da internet como um excelente meio de propagar ídéias anárquicas ou absolutamente independentes, como veículo de pesquisa e divulgação alternativa. Até o msn foi um advento e o skype outra loucura para os internautas pessoas realmente necessitadas das vantagens do cybermundo.
Pois bem, mas o que são esses emoticons? A primeira vez que eu vi fiquei um pouco impressionado. As pontuações diferentes, os movimentos hipnóticos e a dança das cores pareciam dar um algo mais para a comunicação digital. Me impressonava o alto índice de gírias e cagüetes, abreviações errôneas e barbarismos da língua portuguesa na maioria das mensagens que eu recebia todos os dias. É impressionante como ficou difícil para os internautas digitar português corretamente. Ninguém se entende sem uma gíria ou vício virtual de escrita? Pois bem, criou-se o pior: o emoticon.
Agora não existem tantos textos errados e mal escritos. Existem mensagens cifradas, códigos de mau gosto e atalhos pros olhos, uma poluição visual grande e um efeito, em mim, quase tão desagradável quanto o episódio fatídico onde o pikachu brilha tanto que fez crianças enjoarem, terem ataques epilépticos e mal-estar no Japão. Me flagrei imaginando "quem poderia ter criado uma coisa tão anti-educacional?
A televisão fica muito tempo ligada na maioria das casas brasileiras. E ficam sintonizadas, em sua maioria, na rede Grobo. Uma propaganda da Kibon me chocou. Colocava um jovem derretendo-se por um sorvete do amor com uma trilha sonora em inglês, mas nitidamente cantada por brasileiros, e aquela festa do beijo rolando ao som do enlatado comercial ianque. Me deu nojo. Uma hora antes estávamos, o Maskavo, fazendo uma entrevista para a MixTv, em São Paulo, jogando consoles importados, jogos americanizados, incluindo o jogo de futebol. Sabe aquele futebol norte-americano que não tem lateral, não tem linha de fundo e é jogado em grama sintética. Esta é a nova sensação da Fifa Games. Eu joguei com a apresentadora do programa, perdi de 5X0 mas não entendi bulhufas do jogo, nem das jogadas e nem os comandos. Fiquei bobo. Mas lá o Prata comentou que fazer música em inglês no Brasil era meio estranho porque a própria população não aceita um grande nome brasileiro que cante apenas em inglês, a excessão do Sepultura que alcançou status mundial indo na contramão da MPB e do rock brasileiro. Mas uma rara excessão no Brasil. E eu assisto, quase como que por imposição, um comercial já suavizando nossos ouvidos pro futuro da língua portuguesa: o tupenglish.
Na medida em que o império norte-americano parece mais fragilizado, quando passa no canal do national geographic documentáro sobre o 11 de setembro contando apenas os mortos norte-americanos na tragédia, um número bem menor de mortos do que o real, quando os tufões, ciclones, furacões e enchentes expõem a miséria USA não tem um filme brasileiro passando na televisão. Nem na T.V. Cultura. Nas rádios é possível ouvir os hits e os dólares por trás deles em praticamente todas elas, rádios segmentadas do país. Onde a música brasileira se viu obrigada a aderir aos rótulos importados dos discos ianques, onde ficou difícil escrever com a certeza de que a poesia brasileira necessita de mais palavras, mais rimas, mais tempo para dizer "eu te amo" ou "estou com medo".
O jeans, a grife adidas ou wilson, os piratas ray ban estão em todas as bancas de camelôs do país. O que são os camelôs senão a massificação do sonho americano de possuir, possuir, possuir sem a necessidade real de ter?
O crediário é uma idéia que suga também a energia do brasileiro. Não sei sua origem, poderia ser até um excelente tópico de pesquisa antropológico visto que os antropólogos não tem mais o que estudar destruindo o frágil modo de vida anti-americano. Uma lástima. Estudem a origem do que mais nos tem tirado o sono: a urbanização de nossos sentidos, o medo de morrer e a necessidade capitalista de destruir sonhos. Obrigado.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Sangue Latino - minha alma cativa

Sábado aconteceu o inusitado. Estava indo em direção a Salvador do Sul, RS, sentado no banco de trás da van. Minha direção era o trabalho, mais uma noite onde o dever tinha que ser cumprido com profissionalismo e paixão. Ouvindo o amigo Everton Cunha prosar em seu programa notívago, ouvindo meus amigos se divertirem com as músicas de bom, excelente gosto que ele colocava às 23:30h, desembestou a idéia de ligarmos pro amigo. Alô? Fala, Everton. Bruno, do Maskavo. Massa... bom, a gente está ouvindo o seu programa, é uma praxe pois sempre que estamos no sul e estamos a caminho de alguma cidade, pro show obrigatoriamente, acabamos sintonizando e prestigiando o amigo... e tal... ok, obrigado, a vida? Está boa, sempre estamos viajando... o Prata? O Quim, o Celeza? Estão todos muito bem. A gente vai pra Salvador do Sul. Pode sim, pode divulgar. Claro, Everton. Muita paz pra ti também. Vai mesmo? Vamos ficar aqui ouvindo. Um abraço.
Na seqüência aconteceu a homenagem. primeiro o Everton dedicou Hotel California, dos Eagles, pra mim o que foi emocionante. Meu pai foi me visitar em casa. Era a primeira vez que ele ia me visitar em meu lar, ver minha mulher, minha gatinha e o que tem lá pra fazer. A cozinha, o sofá novo e a máquina de lavar roupa. Uma das coisas que ele fez questão de me mostrar foi um dvd do Eagles e me fez o desafio de descobrir quem cantava Hotel California, qual integrante era o crooner? Hoje eu sei, mas não vou dizer qual deles. Foi uma ótima homenagem.
Depois ele tocou Don't let me down, dos The Beatles. Dedicou-a a todos do Maskavo e foi aí que realmente a coisa fez sentido pra mim.
Fiquei com vontade de dividir esta emoção.
Obrigado!

sexta-feira, outubro 21, 2005

O que eu acho do referendo do dia 23/10. - Brasil, meu Brasil brasileiro.

Para questões de sociologia e política eu tenho estudado um pouco. Tenho me aprofundado nos conceitos que hoje ampliam as margens da sabedoria humana, como a filosofia é a água que flui intermitente pelo leito, pelas margens até o mar, discutindo o bê-a-bá da ciência política e da história com muitas pessoas, com a minha mulher estudiosa.
Eu moro no interior de São Paulo e já morei em muitas partes do país. Já residi em Brasília e em São Paulo. Já veraneei no litoral sul de Santa Catarina, morei meses em Porto Alegre e 35 dias no Rio de Janeiro. Já voei mais de duzentas vezes de avião, já rodei mais de cem mil quilômetros pelo país em um ônibus trabalhando, observando tudo com olhos de águia.
O referendo do dia 23 de Outubro é muito importante para os brasileiros, mas nem tanto. O problema do uso, do porte e da comercialização de armas é um véu que nos ilude dos verdadedeiros problemas que estão tendo que ser resolvidos neste país. Problemas que solucionados salvariam mais pessoas por dia de morte morrida, da fome e da hipocrisia que é ter de acordar para votar dia 23 de Outubro.
Do Marechal Deodoro da Fonseca até Fernando Henrique Cardoso, no governo Lula, ninguém foi capaz de juntar um conselho ou parlamentares para votar algo tão delicado e íntimo para o cidadão? Hoje serão os brasileiros que devem legitimar a sem-vergonhice parlamentar que não nos protege nunca, pois a violência urbana, familiar, mundial tem suas raízes na desinformação, na alienação do indivíduo no capitalismo material, na fome e nas disputas de territórios mau divididos nos períodos de invasões? O POVO DEVERIA ANULAR SEU VOTO DIA 23 para não ser forçado a decidir algo delicado e nobre para a vida humana. Somos capazes de quase tudo, até mesmo de decidir questões de ordem superior, vida e morte. Mas o povo já perde escolhendo o SIM e o NÃO. Eu preferia votar na CPI dos correios e do mensalão, cassar os políticos corruptos e tirar seus benefícios públicos do que decidir sobre o comércio de armas no país. Preferia usar o orçamento do referendo para aumentar o número de leitos e médicos no SUS, dar aumento salarial para os mesmos ou criar um fundo com os benefícios de parlamentares cassados para fins de pesquisa universitária. Qualquer coisa seria melhor do que votar sobre o comércio de armas.
Na minha opinião a incompetência legislativa e executiva não tem como prioridade solucionar o problema de armas no país com o referendo e sim enganar os olhos dos brasileiros com mais uma questão tradicionalista e atrasada. O que os olhos não vêm o coração sente. Eu não me engano com isso que está acontecendo. Eu fico feliz pela mobilização dos votos, mas haverá venda de armas pro exterior igualmente, as armas de lá virão pra cá, de um jeito ou de outro, e o que gera a verdadeira violência no país gerará outro tipo de violência no futuro. O homem, para fugir da agressão e da violência, precisa afastar-se de outros sentimentos primeiro. Precisa cumprir seu papel de criador diariamente e estabelecer prioridades para o corpo, a mente e espírito com equilíbrio. A violência cessará nele imediatamente. A pior arma é a vontade, depois é o tiro ou a facada, depois é a morte. Se ligue. Obrigado.

domingo, outubro 09, 2005

A esfera, o globo ocular - o ouvido, a personalidade

Tem uns meses já que eu me propus a escrever tudo aquilo que me vem à cabeça. E se engana quem pensa que eu só escrevo para a internet. Já tenho o hábito de guardar algumas memórias ou escrever ensaios e críticas pela internet desde o colegial. Eu, meus irmãos e o Jorge, um amigo de Brasília, criamos em 1993 junto com um grupo de alunos do Leonardo da Vinci, escola de renome na capital, o movimento Babaísta para fins literários, musicais, esculturais e de análise do cotidiano. Muitos anos depois, já na faculdade de história, foi que eu vi que a "história do cotidiano" estava abrindo suas janelas para a vida acadêmica depois de tantos anos de fatos, fatos e datas, datas.
O movimento babaísta tinha muitas cabeças pois partia do princípio moderno de que alguns temas eram especiais, vinham de nossa própria experiência e do surrealismo do imaginário que existia em cada pessoa que curtia rock inteligente, música clássica, quadrinhos europeus, Rush, fotografia, tatuagens, o sol, os eclipses lunares e a própria juventude. Um dos caras mais atuantes se chamava Alexandre, mais conhecido como Tampinha.
O Tampinha tinha a qualidade rara de juntar as pessoas certas no seu corcel II e distribuia rebeldia verbal e solavancos sexuais junto com suas camisetas cortadas e seu conhecimento da alma humana. O Tampinha sabia dizer coisas antes delas serem pensadas por professores. As vezes ultrapassava o limite do silêncio entre o som do giz da professora com seu grito seminal. O grito seminal convocava a todos para mais uma reunião babaísta nos intervalos ou no final da aula.
As reuniões babaístas era bastante rápidas. A meta era que cada integrante escrevesse o máximo de absurdos estéticos possíveis em forma de prosa ou poesia. Podia ser um desenho também. Os trabalhos seriam reunidos e colocados nos murais da escola para que todos tivessem acesso aos trabalhos. Geralmente o tema era criticar algo extremamente comum ou rotineiro e fazer do tema uma espécie de fuga do normal para os detalhes extravagantes das curvas. Da escatologia aos sapos, do amor perdido aos discursos veementes sobre a inexistência da girafa, matando uma aula ou outra por causa de um fenômeno natural, tudo girava em torno da compreenssão do que éramos como jovens alunos e filhos e do que poderíamos dividir entre os colegas, nossa alma.
Kanéforas, o homem que veio dos canos, filósofo babaísta que inspirava nossas ambições deve ter sido um dos primeiros a ter seus relatos publicados na internet. Eu mesmo fiz a primeira e única página babaísta na internet em 1996 com poesias minhas, do Breno e do Jorge contendo citações filosóficas sobre cinema, filosofia e música babaístas. Os babaístas, depois do colegial, se tornaram "as veias de seus próprios canos" e cada um foi estudar ou trabalhar em alguma parte do Brasil. Até que se perdeu o babaísmo em mim e eu me esqueci de como eu era...
...o exercício das palavras é pior do que a musculação. Pesos materiais, à medida em que você vai adaptando as técnicas de suporte de peso e massa muscular às suas, são medidas exatas amparadas pela gravidade. Nas palavras o peso é subliminar, depende exatamente do conhecimento da palavra, do seu sentido figurado e real, do seu estado de espírito com relação ao tempo presente e de repertório. As vezes meia palavra pode servir. As vezes nem meia palavra basta. Os pesos sempre terão utilidade enquanto existir papel.
De tanto escrever nesses meses acabei colecionando algumas palavras distantes que me fascinam até o osso, busquei detalhar os sentimentos que estão no ar implorando para serem revelados. Uma palavra desperta e agradece quando utilizada. O homem já não tem este talento. O homem curte o lance do ego. Ego é uma palavra. Apenas uma palavra a mais em nosso dicionário.