terça-feira, outubro 03, 2006

Situação Estranha nas entranhas da razão

Esteja consciente e deixe de lado à razão. Esta frase é muito boa e, dita em algum restaurante sob forma de chacota com o Marceleza, ilumina uma séria questão humana aparentemente abandonada: a política humana. O que eu digo com isso é que as relações humanas chegaram a um ápice individualista, perto dele talvez estejamos, onde a síntese do cotidiano está tão concretada na política que o assunto virou motivo de piada. Além de saber que a maioria absoluta das pessoas no Brasil apresentam um saber político mas não exercem a sua função social, os direitos e os deveres dos cidadãos brasileiros, faz com que a alienação ou o descaso se tornem verdadeiras ferramentas para a manutenção do sistema vigente de eleição e governabilidade. O poder de votar e seu efeito estão sendo anulados diariamente nas atitudes mesquinhas, materialistas, na desinformação e nas classes emergentes e elitistas e encerram com pesar qualquer postura ideológica a que se submetem os rebeldes do capitalismo ou surfistas de ondas gigantes do sistema.
A quem interessa a anulação do poder de votar? O deputado quarto mais votado em São Paulo, Sr. Clodovil, não sabe nem porque se elegeu, não tem proposta política nenhuma, está disposto a aprender e ganhou a confiança de meio milhão de paulistas e paulistanos. A maioria absoluta de Alckriminalistas de São Paulo elegeu Paulo Maluf em primeiro lugar e Celso Russomano em segundo lugar. Frank Aguiar, o cachorrinho dos teclados, tem uma proposta lá no Congresso defendendo uma classe que não existe no papel e na legislação do Brasil: músico. A hipocrisia do estado mais rico do país é a cara do que estou abordando. O poder de votar anulou aqui ou atrapalha por mais quatro anos um processo de desenvolvimento subtropical vigente em toda a américa. É impossível sermos socialistas ou totalmente neoliberais porque jogamos nos dois lados destes conceitos. Somos grandes no continente e pequenos no jogo atômico e de segurança. Fazemos aço de baixa qualidade, produzimos soja e cana-de-açúcar como loucos e ainda não fizemos uma reforma agrária. Apostamos tudo na urbanização e no êxodo rural para que, entupidos e amontoados em prédios sejamos espectadores do bizarro. Toda terra produtiva do Brasil será de, no máximo, umas trinta pessoas do mundo. E, sem exagero, com o poder de votar em tão franco abandono e com uma nação aprovada sem recuperação nas escolas, sem renda garantida pelo trabalho marxista, sem terra pra cair morto se tudo der errado, é fato que o Brasil não passa de uma bomba-relógio. Ainda não foi inventada uma burguesia no Brasil. Temos aristocracia e elite, menos burguesia. A que tinha morreu na ditadura, foi perseguida, catequizada no exílio e na saudade de casa, mudou-se para a Califórnia, toca Bossa Nova mundo afora ou dá aulas na Sorbounne. Mas não está aqui desempenhando seu papel social. Existe um abismo enorme entre quem vota por aqui. O mais baixo escravo do sistema, o proletário e o autônomo pulam de galho em galho em busca de uma saída para pagar os crediários e as parcelas daquele carrão que vemos a Cicarelli vender nos intervalos da novela as oito horas. Quase não possuí posses, terras, casas. O que tem é status e olhe lá. E existem os emergentes industrialistas, agronegociantes, agiotas e banqueiros e políticos profissionais que detem um grande poder de comprar os votos de quem tem o poder de votar, manipulam as fontes de riqueza do país de acordo com as especulações e necessidades dos mercados externos, extorquem a si mesmos destruindo patrimônios naturais em detrimento do desenvolvimento copiado, do modelo de urbanização de Nova Iorque ou Tóquio e deixando de lado nosso potencial turístico, humano e cultural, tradicional e único em busca de uma cadeira em alguma reunião em Genebra onde nenhum deles poderá sequer pisar. Acho bizarro que o plano de mudança do brasileiro seja, depois do Lula, retroceder aos tempos de FHC com o robótico e anticarismático Sr. Alckmin. Acho bizarríssimo porque não muda em nada a direção da vela deste barco remendado.
Daí surgiu a estranheza: nossas eleições estão cada vez mais parecidas com as que vemos na televisão, as norte-americanas... um lado Bush e outro Gore, o mesmo lado no final. Aqui é Lula e PSDB, porque Alckmin é o fantoche do diabo, a pele de cordeiro mesmo, o mesmo pacto de corrupção velada dos anos 80 e 90, é o amigo dos gente ruim, assim como Lula era amigo do Palocci, do José Dirceu, do Waldomiro, e assim sempre será a política enquanto ela não se humanizar de novo. O povo abriu mão de mudar seu voto mais uma vez. Abriu mão de radicalizar. Até a campanha do voto nulo foi abortada na reta final porque? Por que o brasileiro é um eleitor covarde? Agora não temos mais direito à radicalizações. É PT ou PSDB e se fodemos por mais quatro anos. E eu aqui em São Paulo com Serra, Maluf, Clodovil, Russomano, Aguiar, João Paulo Cunha, Berzoini. As vezes eu me pergunto qual é a relevância em ser músico e não poder fazer um quase nada para impedir que esta máquina do mal contínua, com suas engrenagens bem azeitadas, breque pelo menos no momento de lucidez do jovem e entenda que está, há e virá algo podre no ar. Silêncio.

terça-feira, setembro 26, 2006

O que é melhor para crer?

Não me acostumo com a idéia de morrer que tem os gringos. Eles se matam por qualquer coisa, desejam morrer o tempo todo. Tem a máquina imperialista toda a seu dispôr, dólares que os levam para todos os cantos deste planeta, os levam para dar uma voltinha no espaço, os mais ricos e afortunados capitalistas, mas mesmo assim eles querem morrer! Fico feliz, mas muito feliz mesmo em ser brasileiro. Um tipo mestiço que tem uma genética privilegiada: a força, o sangue, a ciência. Procurei fazer uma pesquisa sobre mestiços pelo mundo todo e encontrei ontem um artigo francês que iluminava um assunto deveras crítico na razão humana: a discriminação racial na Rússia. Sabe-se que Stálin foi um executor mais cruel que Hitler e um perseguidor de minorias implacável escondido nas entranhas de ferro e fogo que esculpiram um gólem feioso, deformação total do que seria um ideal socialista, enfim criou uma utopia do medo. Hoje em dia o neonazismo surge do inferno sob a forma de ódio pelos mestiços, pelo estrangeiro, pelo diferente. Sempre a humanidade temeu a diferença. A globalização é a única resposta para a massificação total de tudo, do modo de vestir, falar, dos conteúdos dos livros, dos filmes mais famosos, dos tablóides ou do mais simples CLIP. O mundo odeia diferenças ou coisas diferentes. Pois bem. Sempre acreditei, aprendi na escola que ser caucasiano era ser branco, um sinônimo de descendência européia do norte, polonesa, russa, finlandesa, búlgara. Nada de francesa ou grega. O caucasiano é um tipo bárbaro dos tempos antes de Roma, do império latino, um fronteiriço da Ásia central e das divisas montanhosas da Europa oriental. O caucasiano é um mestiço hoje em dia, mestiço de todas as guerras que acontecem por lá desde os gregos e hoje são os perseguidos dos neonazistas. O caucasiano não é o branco que eu imaginava. É mestiço como NÓS TODOS BRASILEIROS! Fiquei aliviado com a notícia e dez vezes mais perplexo ainda com o conteúdo do artigo. Somos uns mestiços perseguidos por uma minoria, a maior minoria que existe na minha opinião. Uma minoria de gente que acha que não está sujeita à genética do sexo. Acha e de achismo estamos todos de saco cheio!
O gringo tem medo de morrer porque aterrorizou indiretamente tantos povos, tantas energias, tantas famílias, tantos lares e sociedades que está intrinsicamente ligado a tudo isso, à toda destruição promovida pela minoria capitalista escondida em códigos cifrados das bolsas de valores, das desinformações sobre isso ou petróleo ou aquilo pra que os mestiços, sim, não se unam, não enxerguem além do que está sendo a poeira de nossos globos oculares. O gringo acha que nós mataremos eles. Seja pela briga ou pela dominação do êxodo urbano mundial, pela acirrada disputa pelo trabalho mais tosco e vil que se possa fazer. O gringo enxerga a viedade, a maldade nas coisas e duvida de si e da bondade das empresas e das propagandas. Talvez por isso tema tanto o terrorismo. Aqui no Brasil o terrorismo vem de fora pra dentro. Temos medo é de ficar sem ter o que comemorar porque alegria de pobre é cachaça, festa, esquecimento. Mas é daí que saem os melhores poemas, as melhores melodias, os encontros mais inesperados... e você sentado aí querendo ser gringo ou caucasiano deve estar pensando "me fodi!". Pois é, você se fodeu! Você é mais um perseguido na Rússia e na casa do caralho, mas é feliz no Brasil. Viva a diferença. Viva o medo de morrer. VIVA!
Acho que o dólar da vontade de morrer.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Aurora

Sabe-se lá porque o dia é dia e se chama dia. Pois a noite denota o escuro, o sombrio, mas se fosse dia desde sempre, desde antes do saber seria dia a noite e a noite poderia ser qualquer outra coisa. O sol despeja seu brilho, múltiplas linguas saboreando o vácuo e a imensidão do que se chama Espaço, outra grandeza esquecida e perdida na geometria das embalagens. O sol emana energia tamanha, sua explosão tão sem atrito fustigando os átomos macrocósmicos e os planetas, as divisões das órbitas e as estrelas, que irradia em cada poeira gigante uma característica intrínseca ao calor, ao fogo, ao agente transformador e que na Terra fez vapor, depois unicélulas, pluricélulas e depois, ao que tudo indica, deu-se à vida o primeiro sabor dela mesma. Bom dia!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Amputechture - The Mars Volta álbum novo - Crítica

Por exercício mental me propus a fazer uma redação. E a próxima coisa que me motivou a tanto foi o disco, mais novo disco, da banda californiana The Mars Volta. Pelo novo, AMPUTECHTURE, uma construção musical com formas, sombras e cores bastante instigantes, amputações? Não saberia dizer o que isso significa, mas amp é bastante psicológico, deve fazer você querer arrancar ou querer desejo de ser arrancado de algum pensamento ou lugar comum. É um pouco isso que rola na primeira audição de Amputechture. Parece que tudo começou pra esta banda com a morte de Julio Venegas, eu não sou um fã. Mas só pelos timbres já vale muito a pena a audição das idéias particulares de Cedric Bixler Zavala (voz e letras) e de Omar Rodriguez-Lopez (guitarra e melodias, arranjos). A segunda faixa particularmente TETRAGRAMMATON impressiona pelo solo de bateria preciso, pela explosão de guitarras e na psicolelia que produz a poliritmia. É muito difícil entender alguma coisa de primeira, mas as melodias são teatrais, muito bem construídas e sugerem muita coisa boa, muitas referências de bom gosto e um tom King Diamond nos falsetes. Gosto muito dos sons das palavras que não entendo. Produzem ótimos efeitos, no entanto. A quarta música diz muito também, mas é difícil chegar até ela. Até lá serão longos mais de 28 minutos. Valerá a pena? Pra mim foi como andar no bosque de Marília, só que viajando na imaginação dos outros. O bom gosto, no entanto, e a vitamina que o The Mars Volta esconde é MECCAMPUTECHTURE. Fiquei emotivo e acho que isso deixou de ser crítico, no final. Para quem se interessar o link com a viagem deles é este aqui http://www.myspace.com/themarsvolta (deve ser provisório a execução na íntegra do álbum e gratuita) e das faixas posteriores, eu recomendo a sexta. Viscera Eyes.

Questão de classe

Estou bastante incomodado com o uso excessivo da palavra POBRE em tudo o que se relaciona à eleição. Estou cansado que os jornalistas examinem de seus escritórios, de seus notebooks, o que representa a palavra pobreza quando lida e relida diariamente. Causa repúdio. Um descenso, uma gota. De que adianta escrever sobre ela todos os dias, de conceituar o cotidiano do brasileiro, defini-lo simplesmente como, menos do que uma classe, julgar ser o pobre o inverso do rico. Isso é um insulto que vem da direita para a esquerda. Ficou tão sem conteúdo, tão futilizada a palavra pobre que, não só sendo o patrimônio, o último sopro de vida de Regina Casé, é a caravana do mais boy apresentador e poeta do BBB, Pedro Bial, o pobre virou a cara de quem mesmo?
Toda vez que penso em pobreza uma pessoa vai e mexe no meu lixo. Todo os dias é assim. Incomoda olhá-la lá buscando algo para vender. Algo que esteja misturado às fezes da minha gata, às fraldas do meu filho, às embalagens de papelão. Eu aviso, explico sobre toxoplasmose. Mas a pobreza, a verdadeira pobreza humana me responde, tudo bem, dotô, é o risco. É o risco mesmo, minha velha senhora, minha jovem mãe de três filhos todos subnutridos e sujos, meu bom senhor. Um dia desses um jovem como eu, assim como eu mesmo, me pediu dinheiro pra ir a APAE cuidar de seu filho recém nascido, assim como o meu filho, e eu tinha 5, 20, 50, mas não tinha 1 ou 2 reais. Bem, pensei no meu filho e imediatamente dei os 5 dizendo SUMA DAQUI QUE ME DÓI SABER QUE VOCÊ EXISTE, SENHOR. Ele foi embora sem me olhar nos olhos nenhuma vez. Sua voz cortava até papel... era muito triste ele ter que ir a APAE às 23h enquanto minha mulher dava de mamar ao nosso bebê que, de tão saudável, impressiona. Fiquei triste pela falta de sorte daquele jovem senhor, assim como eu. No outro dia tive que ir à rodoviária, ossos do meu ofício, e 2Km de distância da minha casa vejo uma enorme placa desbotada, devia estar ali a tempos, escrita em azul escuro APAE...
Por isso que quando eu leio sobre o pobre eu odeio o jornalismo. Está claro que ninguém tem propósito quanto a isso. Está na nossa cara. Está impresso como ferro quente em carne bovina no peito de todo mundo a vergonha que é ter de conviver com isso. Qual proposta seria melhor do que acabar de vez com o que nos incomoda? Quem está ganhando algo com a palavra POBRE estampada em camisetas, bonés, no blog do Josias. Eu não tenho salário, carteira assinada, previdência, seguro de saúde ou vida. Mesmo assim minha ex-empregada queria me processar depois de um mês de trabalho onde ela recusou todos os direitos de trabalho quando recusou ter sua carteira assinada. RECUSOU, pode? E não cumpria a única ordem que eu dei explicitamente à ela: o horário de saída. Isso é que é pobreza. Eu não me engano com o que estão dizendo por aí. Ouço e leio o que quero, penso o que quero e não digo pra ninguém se sou isso ou aquilo. Mas me incomoda o descaso. Se ser pobre é como fazer parte de uma classe, assim como tem sido reportado nos jornais por aí, ser rico virou uma grande miragem, uma classe que é uma miríade de confusões onde a felicidade pode ser a desonestidade ou a frustração porque a verdadeira riqueza é ter saúde, uma pessoa amada, filhos e rodeado de coisas boas, necessárias. Em Brasília tem mais gente rica e sofredora do que pobres infelizes, pode ter certeza. Eu sou de lá, mas sou feliz no interior de São Paulo. Sou um pobre jovem rico pai de família, sacou? Isso não é uma questão de classe, ser pobre ou rico, isso é uma questão de falta de classe, de delicadeza mesmo. Silêncio.

domingo, setembro 10, 2006

Análise crítica

Minha mulher sempre me faz lembrar o que é mais importante. Seus apontamentos, conselhos, até seu silêncio ou olhar envezado, aquele olhar que me diz, bem, meu bem, melhora isso aí, troca a lâmpada, respire o ar seco e renovado de casa. Ajude, me inspira. Mesmo que isso me faça lembrar das dores nas costas, do peso que é a benção da saúde, do meu filho só querer ficar no nosso colo, não que estejamos mimando ele, o frio faz dor toda a impressão do meu filho. O que é o frio, diabos? ele sofre calado, eu tento ser mais maduro e, no colo, ele fica quente e seguro. O que me faz lembrar o motivo desta crítica. Porque está na cara que criticar virou uma tarefa do cotidiano, um prazer do submundo das conversas, dos chats, dos msns da vida. Críticas que não servem para nada, no final das contas, porque só dizem respeito ao indivíduo, a necessidade de sermos alguém materializado no sucesso de bens, de diplomas e viagens, alguém que venda a alma pro capeta mesmo e diga, vou bem, nem sei porque estou aqui trabalhando, minha saúde? o seguro cobre! af, Há existência da crítica até nos desabafos mais triviais. Tudo é voltado pra genialidade da pós-modernidade. Um grande e insípido NADA!
Mas a arte de criticar, esta em questão, talvez tenha existido no Brasil... em uma época em que eu nem era nascido. na época do meu avô, talvez. Não tenho causa pra me aprofundar na história da crítica pois nada estudei sobre ela. estou a escrever de coração e alma sangrando. A crítica é uma arte tão profunda quanto o seu objeto de investigação. Por isso a crítica tem fins de explorar o que mentes pouco treinadas, com percepções pessoais as vezes embaçadas pelo cansaço, pelo trabalho, pela Rede Globo; pela falta de carinho em existir no Brasil, penso, a crítica serve como um telescópio. Um excelente telescópio que não traduz o que investiga, normalmente ilustra e desenvolve paralelos contemporâneos ou explicita sonhos que se traduzem na imaginação ou vivência de quem criou o objeto de estudo, a obra de arte. percebo que neste meu parâmetro 90% do que se diz crítica é, na verdade, sensacionalismo, tablóide, especulação sobre a vida alheia, excesso de fama ou do que se pode chamar glamour sem glamour.
Tive a oportunidade de ler um pequeno livro chamado "Crítica da Razão Pura", de Immanuel Kant, um filósofo alemão. Sua obra aborda o que é a pedra filosofal da metafísica, o objeto de estudo sobre a natureza do que sentimos, conhecemos e sabemos, intuitivamente ou por impressão, talvez o reflexo do espelho do que seria a viagem no tempo e espaço. (As únicas constantes em nossa vida, exclusive.) Seu trabalho, nas palavras dele, é na verdade a análise crítica dos ideais empiristas máximos do século XVII, coisas de gente velha, de Descartes, Aristóteles, de Hüme, onde ele desperta do "sono dogmático" aos 53 anos de idade. Critica a filosofia da razão porque ele entende que espancar a macaca pode levá-la à morte. Busca abrir os horizontes do inexplicável para que, ao invés de Deus, se questione o potencial do que é interno e do que é percepção. A macaca é a essência da alma. por que bate o coração? por que temos dejavús? É possível a transcendentalidade material? São coisas que até hoje poluem a mente das pessoas e elas nem sequer se questionam o porque de suas vidas estar tão previsível, tão melancólica e chata. Imagina o alemão vivendo o iluminismo no meio de alienados? Eu imagino o Brasil hoje pior do que a Europa toda a 200 anos atrás em muitos sentidos, e sendo pessimista, concordo quando Caetano Veloso diz que existem canções demais.
Um viva ao experimentalismo, dóa a quem doer!!!
Para que a crítica tenha validade ela tem que, sobretudo, ter transparência. levantar pontos fortes e fracos, tirar do lugar comum o que é um paradigma ou desvendar um grande segredo. Mas do jeito que a crítica anti-profissional tem sido feita, principalmente porque enfoca justamente coisas não científicas, inumanas, fotografias, ela perde seu caráter fundamental. Abram os olhos para o que é crítica. Duvide de uma crítica. kant foi longe assim. Quem sabe?

segunda-feira, agosto 14, 2006

Extemporâneas N#5 - adendo Sudeste

Há muitas coisas que me inspiram nessa vida. Ontem foi meu primeiro dia dos pais como pai. O que me inspirou nesse dia, além da vontade louca de voltar pra casa depois do dever cumprido, ainda que sob ameaça de ser parado em alguma blitz por causa do vídeo do PCC. Vamos fazer um raio-x do crime.
O assunto PCC não é do meu interesse pessoal por um motivo: não se dá visibilidade ao crime. Isso não deveria estar acontecendo, nem em São Paulo, nem no Rio de Janeiro e nem em Brasília. Nem em Recife ou Ceará, Vitória ou Macapá. Organizações criminosas, na minha infãncia, eram movimentos paramilitares de oposição ao regime extremamente de direita, popularmente conhecidos como Ditaduras Militares das Américas, que usavam a força para criar mercados ilegais de abastecimento de drogas, o famoso narcotráfico, ou guerras tribais que moíam a identidade cultural africana e do Oriente Médio. Era o lado negro do capitalismo, a guerrilha, o terrorista. Eram os locais para onde as velhas armas do Vietnã, da segunda guerra mundial também,, da guerra da Coréia, iam parar. Eram os locais das guerras das sucatas da corrida armamentista russo-norte-americana, a tal Guerra Fria, e das ampliações do antigo colonialismo, um quase feudalismo aristrocrático sem rei ou rainha, o cinismo da dominação global por via da política do crescimento e dominação exacerbada do fogo, da terra, da água, do ar e do espaço, do vácuo na ciência e na corrida pela biotecnologia. O PCC não é um rabisco disso. Não tem identidade e não está em sintonia com nada, a não ser com a sem-vergonhice, vagabundagem e a ladroagem. Querem ganhar nas costas de quem ganha sua vida honestamente, extorquem quem os deve sem dever, sem querer; matam que lhes dá na telha, inclusive em sua pequena disputa interna por poder. Poder vender drogas, armas e munições captadas entre a polícia, o exército ou em trocas por armas, geralmente com países do leste europeu, do oriente médio e das nações africanas. Uma bazuca, doze fuzis AR-15 e pistolas 9mm. Para que dar atenção a isso?
O Sudeste tem problemas muito mais sérios a serem resolvidos. O sistema carcerário em si é, a priori, uma deficiência da sociedade e dos mecanismos de inclusão social em todos os países do mundo. O crime existe pelo excesso de regras que conduzem a ilegalidade à boa-vida. Mordomia na cadeia, eu declaro. Porque eu pago minha água, minha luz e uso elas o quanto eu quiser. Não tenho T.V. a cabo porque não posso pagar. Não tenho internet ADSL pelo mesmo motivo. Me incluo como posso nessa pequeníssima parcela da classe média que possuí acesso, pouco acesso a porra nenhuma. Quando eu ligo a Globo na hora do jornal eu me espanto todos os dias ao assistir matérias especiais sobre o PCC, sobre o CV, menos sobre temas importantes. Menos sobre os países onde o Brasil investe pesadamente seus cobrados impostos em petróleo, minério e outros bens materiais. O mesmo Brasil que fica sustentando uma classe, no sentido mais marxista possível, de criminosos que se misturam a uma camada substancial, grande, de contraventores, bandidos menores ou apenas desajustados, homens e mulheres desesperados pela máquina de subsistência capitalista ou bandidos do colarinho branco, os novos-ricos e ricas, os mal pagadores e sonegadores de impostos. Daí como se sustentam os presos? Com direito a energia elétrica paga pelo contribuinte? Contradição constituinte. Com direito a ver o sol? Para tanto, bastava não ter sido preso. Ditar normas de conduta especiais para os piores indivíduos incorporados ao sistema carcerário do pior escalão? Sim, e sem direito a contato individual. Basta você estar livre para ter esse direito também. Ou seja, o PCC não merece nem o direito à mídia porque é nela que se fortalece e se estabele um contato entre algo que inexiste, o poder dentro do presídio e a busca por direitos sobre as regras que limitam os direitos dos presos em comparação aos ditados pela Constituição ao cidadão comum e íntegro.
Na minha infância existia o Cartel de Medelín e um cara conhecido mundialmente como Pablo Escobár. Esse era o maior bandido do mundo depois de Fidel Castro. Era assim que a mídia usava o narcotráfico, a exploração infantil e outras manobras de massa para instigar o que, de acordo com as pesquisas, indica que são 43% os brasileiros de direita, notícias de que estaríamos vivendo em meio aos criminosos. Eu me pergunto se, nas origens do Brasil, deva existir a busca por algum alinhamento político de origem norte-americana ou européia visto que elas nunca nos beneficiaram na forma de poder, escolher e entender as questões vitais de nosso país. Eu me pergunto se não é melhor defender um plano que nos salve da desordem indireta a que estamos submetidos, nem de direita ou de esquerda, um plano pleno e que mexa nas cicatrizes de nossos problemas. Um plano que nos honre e que nos manche de glórias. A direita, historicamente falando, foi quem criou todos os mecanismos de influência funestos na sociedade global. O tráfico, as corporações, a escravidão, o capitalismo, o neoliberalismo, a centralização do sistema energético em torno do Petróleo e dos remédios, das pesquisas em busca de cura. É disso tudo aí que o Brasil não precisa. Falta-nos malícia para superar as idéias aristotélicas e cartesianas, Deus e a filosofia que se inspirou no divino e a dependência comercial baseada na agroindústria mundial. Silêncio.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Recife

Em Recife, eu já me dava conta de que habitamos uma grande fazenda. Onde as cidades se projetam com a eficiência e criatividade do povo brasileiro. A importância do povo em todo o trajeto de Aracaju à João Pessoa, o povo que habita as encostas e beiras de estrada. As enconstas são todas plantadas de cana, até a linha do que seria um acostamento, mas não é. É chão, cascalho. E as crianças pedindo um dinheiro na estrada? Acho que só tinha visto coisa tão triste na vida em Porto Alegre, uma cigana que tentou me enrolar dizendo coisas sobre mim tão passíveis de acerto - eu tenho um problema? Estou com problemas de dinheiro? Alguma coisa me incomoda! - Ela, a cada acerto, me dava mais pena. Uma tristeza sem dó. E depois me pediu tudo o que eu tinha na carteira pra fazer uma reza e me proteger. O dinheiro? Ele viria depois, em dobro! Pô, minha cigana, eu disse à ela que aquele era meu único dinheiro, que se tudo o que ela dissera era verdade, eu precisava economizar e não fazer mandinga. Ela ficou muito irritada comigo. Uma tristeza só se isso fosse a minha realidade. No final, fui menos que um homem e acabei dando metade do que eu levava. Estava frio e ela estava só com três crianças no abrigo dos trapos dela...
Uma hora na viagem, eu pousei levemente meu olhar em uma daquelas casas de barro. Sempre me fascinou a simplicidade da vida no sertão. O aproveitamento de todos os derivados da terra e dos animais e vegetais. A comunhão com um Deus que só existe lá, é um Deus do sertão que tira tudo o que é subnecessário e deixa apenas a enxada, os bodes, um roçado, uma árvore frondosa no meio do nada pra descansar. Fumar é tudo no sertão. Fomos recebidos pelo pessoal da banda Iup, está lá no trama virtual, pessoal gente fina que, muito novo, resolveu ir pra São Paulo tentar a vida como músicos. O mais velho conta contava com 21 anos. Eu achei aquilo muito ousado da parte deles, o tal espírito valente que eu admiro em Lampião. Mas lá me disseram que o tal chapéu de couro, daqueles grandes mesmo, não se vê mais. É folclore. E eu querendo comprar um pra usar no show em homenagem à Lampião. Tocamos em um armazém na beira do rio muito velho. Um teatro adaptado nas ruínas. Um lugar muito estiloso, alto e com uma acústica ótima. O pessoal que produziu o show era muito jovem, conversou bastante e disse uma coisa que eu acredito: é impossível ganhar uma verba pública através da Lei de Incentivo à Cultura se o projeto, a música ou a banda não tiver zabumba e pandeiro. a gente riu da nossa desgraça pra caralho! O show, de noite, foi marcado por uma ameaça da bandidagem, os caras estão ficando cada dia mais corajosos. Um grupo de 15 ou 20 manos resolveram que a festa ia custar mais barato e que o lance lá dentro era deles. E que a festa seria de Rock. Põ, aí, não rolou nada disso. O baixo astral feminino permaneceu até que tocamos a quinta música do set-list. "É muito melhor para nós dois deixar o tempo andar...", daí um dos manos, e eu sou craque em leitura labial, disse lá longe pro outro: mano, isso aqui é reggae. Vamo nessa. E todos foram embora. Claro, o prejuízo da festa ficou nas costas dos jovens da Iup e da gente, que foi fazer esse show na parceria. Viva os bandidos, né?
Depois disso o show virou um sucesso nordestino. Já comentei que nosso reggae foi bem recebido por lá pela similaridade com o forró? Nada a ver o tema das letras ou os arranjos, mas o ritmo do bumbo, a levada do baixo na frente e a melodia de voz sussurrada. Pô, maior tesão! O show ficou leve, as meninas foram se acalmando e os cuecas que lá estavam, centenas inclusive, cantando todas as músicas, dançando com as namoradas e depois pedindo autógrafos. Foi massa estar em Recife, mas os contrastes lá são dignos de São Paulo e Rio de Janeiro.

terça-feira, agosto 01, 2006

Extemporâneas N#5 - Cana de açúcar, cerveja - turnê desbravando o nordeste em meus olhos

Meus olhos já não tinham mais lágrimas pois o sol, os primeiros raios de sol das Américas, na Barra do Seixas, João Pessoa, Paraíba, 2006, secou minhas ilusões visuais, meu suor alcoólico era apenas o rubor que refletia a luz do sol no mar. Ali eu realizava o sonho pela metade. O sonho de ir assistir, ver e olhar, enxergar os primeiros raios de sol que energizam nosso país. Um país que, em minhas rasgadas reflexões, está opulento, no sentido opu"LENTO", e miserável, desigual, tão desigual e burocrático, arcaico, aristocrático, latifundiário, tão real que está nos livros de história, está na televisão quase todos os dias, está em meu dia-a-dia no interior de São Paulo; tão em nós que paramos de assistir ao espetáculo do colonialismo que se abraça em nossos pescoços desde sempre, se o sempre tivesse começado em meados de 1500. Sempre! Minha mulher as vezes me toma por duro, um coração duro que já não consegue verter lágrimas. Mesmo as lágrimas doces de alegria e paixão secaram com as amargas. O fogo dentro de minhas idéias, o vulcão derramando lava todos os dias em meus pés só podia evaporar as mais profundas amarguras que eu jamais poderei chorar. Isso é lindo, mas é deveras irônico.
De São Paulo à Paraíba o que eu vi foi muita cana de açúcar plantada. Como estou envolvido com estudos sociológicos, estudando Gilberto Freyre, mesmo sabendo que ele não estava totalmente certo, me coloco no papel marxista de pensador e penso... vejo com meus olhos a mesma realidade que ele via com os dele. A mesma realidade que escravos africanos viam com os olhos deles na capitania de Pernambuco. Que os bandeirantes e emboabas abandonaram, eles viram quando rumavam para as Minas no sertão. Muita cana de açúcar pra fazer alcóol pra abastecer carros FlexPower para que? Para deixar muita gente sem ter onde cair morta. Para valorizar os espaços urbanos, que valorizam muito a segurança?, que valorizam a saúde?, que valorizam a qualidade de vida? Li a revista Veja da Semana passada com horror. O sr italiano presidente da G&E, uma das coorporações que dominam sistematicamente a economia mundial, disse que o Brasil vai bem porque planta cana, soja e que as exportações da agroindústria são essenciais para o mundo. E que eles tomariam conta de fazer remédios, desenvolver espaçonaves, carros do futuro e outras coisas que vemos nos filmes de ficção científica. Fiquei triste com a opção que ele nos legou: fornecedores de matéria-prima. Assim, nunca teremos uma chance real na participação do crescimento de uma realidade, pro Brasil, de igualdade social.
Quando estive em Aracaju pude ver o orgulho dos sergipanos: a maior orla do Nordeste. R$80 milhões! O taxista falava normalmente que aquilo ali era uma roubalheira só. As menores prostitutas não estavam nas esquinas ali perto pois chovia. Não via naquela obra a mesma coisa que vi quando cheguei por lá. Um povo educado, solícito, bonito. Com aquele tempero no sotaque, coisa bastante peculiar no país como um todo, sob o geral falamos a mesma linguagem. O Tequila Bar, local onde tocamos, era muito bonito com seu acabamento mexicano em mosaicos, com uma área que se recheou de 900 pessoas para curtir um reggae em uma quinta-feira chuvosa. Mas que nada. O frio de 23 graus celsius de lá não é como se pensa. É um desaforo da natureza mesmo! Mas assim, com muito axé fizemos um belo show em Aracaju. A minha certeza se confirmou: é só dançar Maskavo juntinho que dá pé! E como no Nordeste o que pega é forró e forró com reggae é quase a mesma coisa, a batida one drop, o bumbo no ritmo do coração, bum puru bum bum. O clima foi de primeira qualidade e a surpresa superou à cana. O povo sabia cantar canções do disco O Som que vem da Luz do Sol. Alegria, alegria, alegria.
Em Maceió, no Maikaii, a surpresa se tornou um êxito antecipado de orgulho e sorriso. todos os ingressos para o show haviam esgotado desde o meio-dia. Quando chegamos de micro-ônibus lá já era mais do que isso. Fomos comer peixe e tomar suco de cajá, ouvir Roupa Nova no dvd e rir da nossa própria fortuna. Bucho cheio e sem chuva na cabeça. Maceió foi a terra onde tinha mais mulher bonita que eu já vi na vida. Apesar do palco pequeno, dava pra sentir a vibração do lugar. As meninas todas dançando, quando melhor com seus pares, e todo mundo cantava "a la la u ê", "te ver passar é viver mais feliz...", "ficar esperando, a permissão do seu amor..." foi lindo. A mesma surpresa se cobria com as imagens infinitas de canaviais pela estrada que liga Aracaju a Maceió. Quase 300Km de cana na beira da estrada. A festa em Maceió terminou assim que nosso show acabou e eu ouvi um grupo de mulher reclamar que o cheiro de calcinha estava enorme naquele lugar. Outro problema a se discutir em breve.
Chegamos em Recife naquele microônibus recém-lanternado, sem pintura, no mais chique hotel da praia de Boa Viagem, aquela mesma da canção do Alceu Valença, hoje o reduto de tubarões que atacam banhistas não desavisados. Há placas com alertas sobre ataques de tubarões por todos os lados. Isso é meio triste de ver. Silêncio.

quarta-feira, julho 19, 2006

Um ciclo completo - um círculo de fogo!

Este texto eu dedico a todas as pessoas que tem banda, querem viver de música ou trabalham com arte. É um texto dedicado à visão!

Em 2004, eu estava vivendo um turbilhão de emoções. O Tsunami na Indonésia ainda não tinha devastado os noticiários, o governo Lula dava seus primeiros passos rumo à crise política e o mercado fonográfico no país estava indo pro fundo do poço. Os juros altos, a elevação do preço do dólar, a supervalorização do Rock pela mídia em geral quase acabaram com a maioria dos bons contratantes de shows deste país, pelo menos na região Sul e Sudeste. O que valia 2 passou a valer 4, o que era uma revelação passou a ter status de estrela, o que era bom ficou horrível. No meio disso tudo estava eu.
O Maskavo enfrentava seus próprios demônios. Depois de quase 5 anos na estrada compondo e viajando, construindo famílias, namoros, desamores, fazendo discos e negócios e tentando a sobrevida nos destroços que nós mesmos construímos foi que veio a idéia de enfrentar a realidade. A realidade do Maskavo era um palco de cortinas praticamente fechadas. Tínhamos sérios problemas com nosso empresário na época e o descontentamento era algo evidente em nossas vidas. A convivência entre nós exibia desgastes, requintes de solidão extremos, muita desinformação e desconfiança. De todos os lados vinham as reclamações. Da minha parte, o rompimento do contrato com a Deckdisc era a chave do segredo. A troca de empresário era a motivação inicial. E o que faltava? Um disco de músicas inéditas diferente, que não se parecesse em nada com os 3 primeiros discos que fizemos juntos. Nem as músicas, nem o nome, nem a capa. Apenas nossa idéia do que seria, um dia, um disco de reggae que tivesse começo, meio e fim. Um ciclo completo.
O Maskavo sempre foi uma banda avessa a prêmios. Quer dizer, nunca fizemos nada buscando reconhecimento ou notas. A filosofia da banda sempre foi uma dicotomia: show/fã e o pilar de nosso trabalho precisava de um novo tipo de cimento.
Como somos macacos velhos resolvemos usar as experiências de todos para saber qual rumo tomar. Um disco independente? Qual repertório? Quem iria distribuir? Quem tocaria no rádio? Onde arrecadaríamos verba para gravar o disco? Quem seria o produtor? Onde seriam os ensaios? Foram tantas discussões, argumentações, momentos de crise. Nem um site decente tínhamos, na época. Onde buscaríamos a força interior para realizar tal façanha?
Lembro com muito carinho dos meses que antecederam as gravações do SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL. Os ensaios foram onde hoje é a casa do Prata, mas na época era a minha casa também. Eu já estava namorando a minha esposa e escrevia praticamente todos os dias explicando as dificuldades em se fazer um disco no escuro pra ela. Também me empenhei em fazer algo que eu nunca tinha feito: escrever músicas sozinho. Poucas delas deram certo, mas as idéias que surgiram de músicas inacabadas acabaram compondo grande parte do que são as linhas de baixo e algumas frases que temperam o álbum hoje em dia. Eu fiquei radiante com a possibilidade de fazer um disco sem compromissos reais com a indústria fonográfica. Claro que a luz estava no final do túnel. A própria editora da Deck ainda queria publicar nossas músicas e isso pra mim era um sinal de portas abertas. Outra coisa importante foi o Cacá e o YB, estúdio onde gravamos. Foi a primeira experiência em estúdio prazerosa que eu tive. À começar pelo tamanho do estúdio e pela qualidade das pessoas e do equipamento presente e disponível. E depois pelo acesso à tecnologia de gravação e captação, que sempre me interessaram, e guardados em segredo nos tempos de Deckdisc. Eu nunca tinha colocado meus dedos nos faderes, periféricos valvulados e amplificadores na vida. Aproveitei a chance para aprender a gravar, mixar e depois coloquei tudo à prova na fita demo que produzi da banda do meu irmão, o Virgem Again.
Meu irmão foi muito importante em todo o projeto. Breno acabou indo passar quase quatro meses comigo em São Paulo. Eu liguei suplicando sua ajuda, afinal, a banda estava em frangalhos e falar deles seria muito difícil porque eram problemas dos outros e não meus, mas acabavam interferindo nas minhas escolhas. Aquele período de cada um de nós foi um saco. Um desânimo do caralho....
Com a presença familiar, onde dividimos minha cama, cerveja, longas horas de conversas e composições, horas nos ônibus e quartos de hotéis pelo Sul do país, eu e o Breno começamos a fazer um site do nada, sem nem mesmo saber como programar uma página na internet. O site ficou tosco, mas a idéia de envolvimento em todo o processo artístico era como deixar meus olhos soltos no microscópio da banda, nos nossos pontos fracos. E faltava dinheiro pra tudo, até para comer as vezes.
Quando foi Agosto, dia 3, especificamente, de 2004, entramos em estúdio com 9 músicas prontas e 4 músicas inacabadas. O Beto Machado foi contratado para ser nosso engenheiro/produtor pela intimidade e experiência que tinha com o Maskavo nos anos de gravadora. O nome do álbum veio em uma conversa embaixo da minha janela, eu, Prata e Breno tomávamos sol e pensávamos que o disco merecia um nome psicodélico, imaginário e instigante, sonoro e que não fosse monossilábico. Daí, entre um e outro copo de cerveja o Prata soltou a pérola, dilapidamos a idéia e ficou O SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL. Com a capa do disco o buraco foi mais embaixo. Sempre curtimos a idéia de colocar arte na capa mas entendíamos que é preciso associar o nome da banda à imagem da mesma, uma coisa problemática para qualquer artista. Foi uma guerra entre eu e o Prata, principalmente. Eu não gosto de coisas muito dadas, fáceis e que não necessitem de reflexão. Sou avesso a idéia de que o povo é burro e não almeja profundidade nas coisas. Sou contra tudo o que é legivelmente volátil. A idéia que prevaleceu, no final, foi a foto dos integrantes na disposição do show, nossos rostos, com um fundo de quadro que o Prata comprou de um artista brasiliense com a programação do Petersen, nem sei quem é esse cara, mas o que ele fez valeu o investimento. A foto do pôr do sol na contra-capa é do Breno tirada em um dia bonito em São Paulo à caminho do estúdio. Hoje analiso tudo dando risada, mas na época levávamos todas as discussões a sério e até a capa do disco foi motivo de briga. No final, cedi porque confio no que dizem o Prata, o Quim e o Marceleza. Afinal, somos todos fundamentais. Mas o layout quem idealizou foi meu irmão e o Prata e isso me dá certo orgulho. Nossa melhor capa até hoje.
Um fato legal de se lembrar foi a gravação da música SINGELA CANÇÃO. Composição de 2001 do Quim, essa música tinha sido preterida pela gravadora por ser muito melosa, não ser um hit de rádio, qualquer coisa era uma boa desculpa para não gravá-la. E nós, muito por orgulho, fizemos questão de inserí-la no álbum como demonstração de força de vontade, gosto pessoal e sob forma de desabafo, mostrar que quem mandava na banda a partir de então éramos nós. Mas na hora de gravá-la a coisa enroscou. Nenhum de nós depois de quase 3 semanas no estúdio tinha a menor idéia em como arranjá-la porque, enfim, descobrimos porque a gravadora não gostava dela. Em si, a música não tinha nada demais, era meio infantil e só nós 4 gostávamos dela de verdade. Era questão de amor pela canção. Mais uma vez, depois de discussões, quase abandonamos a música e fomos buscar outra em nosso repertório. Um dos integrantes quase chorou quando eu disse que a música escolhida para substituir a Singela Canção não era boa pra gravar. Eu também já estava de saco cheio de tudo, das pessoas e da rotina. Queria que as coisas fossem do meu jeito e isso não funciona em uma banda. Eu poderia até chorar, mas esse não é meu estilo. O Breno, o agente neutro, acabou nos dando o maior esporro e nos fez ver que desistir daquela música seria um erro. Voltamos pro estúdio, o Quim se armou das baquetas, o Prata foi pro baixo e eu fui pra guitarra, o Celeza soltou o gogó e fizemos ali um arranjo dance-Roberto Carlos improvisado que nos pareceu legal. Trocamos eu e o Prata de instrumentos, cada qual dilapidou as idéias e saiu em um ÚNICO TAKE a faixa final do álbum. Ali, eu fiz minha sincera homenagem ao Quim. Que música complicada... QUE DELÍCIA!
Ontem fomos contemplados com o prêmio Dynamite pelo melhor álbum de reggae independente de 2005. O SOM QUE VEM DA LUZ DO SOL nasceu sem esse intuito. Nasceu como um grito de liberdade, de dor, de necessidade, de vida. Nasceu para fortalecer o Maskavo, nosso sistema show/fã, nasceu fruto de amor e vontade musical. Nasceu REGGAE no sentido mais puro da palavra. Quando, em 2005, fui culpado de ter traçado a linha anti-pop do disco porque ele não foi muito executado nas rádios eu me calei, segurei a língua, abri meu peito e segui. Fizemos um DvD baseado 70% no repertório do álbum presente e minha convicção se fundiu a esse prêmio. Duas semanas atrás confessei ao Quim que, na minha opinião, esse era nosso melhor trabalho e que eu tinha muito orgulho dele. Hoje estou sorrindo e espero que as desconfianças se conformem com o pó dos meus pés. Ninguém disse que a luta seria fácil. O ciclo se fechou com chave de ouro. Silêncio.

quarta-feira, julho 12, 2006

Porque a Copa não é nossa?

O sucesso da Copa do Mundo, para mim, foi a certeza de que o fracasso da seleção brasileira estava nos pés de Cafu, Roberto Carlos e no comando de Parreira. Todo mundo sabe que eu gosto de futebol. Não sou um Nelson Rodrigues ou o Armando Nogueira, mas eu sou eu e minha opinião se parece com a deles, com as do Kfouri e do Tostão, todos profundos entendedores de futebol e apaixonados pelo jogo. Pois bem, eu me lembro de estar no ônibus da banda viajando para Casca, interior do Rio Grande do Sul, quando disse que o sucesso da seleção dependia de três alterações fundamentais pois o esquema tático do Parreira com dois laterais velhos, no caso Cafu e RC, e com o Ronaldinho Gaúcho no meio campo era arcaico, ultrapassado, europeu demais para nosso padrão de futebol. Minha desconfiança com RC e Cafu se confirmou na primeira partida, contra a Croácia, pois o peito de aço do Cafu, de 1994, não conseguiu ganhar nenhuma corrida e dividida contra Srna, o lateral esquerdo croata. RC, pela baixa estatura, tomou duas bolas nas costas que poderiam ter resultado em gol não fosse a cobertura de Juan e também não ganhou nenhuma dividida no jogo dando apenas chutões e caindo no gramado feito uma besta. Eu estava certo em minha consciência.
Por outro lado, com a entrada de Cicinho e Gilberto, o time ficaria mais ofensivo e isso tiraria a vaga do retranqueiro Emerson, pilar do esquema tático de Parreira e, na minha opinião, uma mula. Ele daria lugar a Juninho Pernambucano, jogador de destaque no Lyon, criativo, veloz, que faria a ligação rápida entre o meio campo e o ataque e deixaria o Zé Roberto mais recuado, caso o contra-ataque acontecesse. Juninho, na verdade, iria cumprir a função do Ronaldinho Gaúcho em todos os sentidos e liberaria o craque para ser o terceiro atacante sem função definida no meio campo, sua especialidade no Barcelona e que consagrou seu futebol na Europa duas vezes com a conquista da bola de melhor jogador do mundo. Na frente, por luxo e capricho, Fenômeno e Robinho, outra estrela em ascensão. Adriano seria o reserva do fenômeno e nós, Hexacampeões mundiais!!! Mas eu não sou o Parreira e vimos no que deu a campanha da seleção do Brasil em 2006. No ônibus eu cheguei a discutir sobre minhas opções. Fui obrigado a ouvir que Cafu e RC eram os caras. Pena que eu estava certo. Mas o triste mesmo foi a certeza ter se confirmado em realidade. O que salvou a Copa foi Zidane expulso na final, ou seja, outro fiasco para esta velha guarda que pede pela aposentadoria dos campos. Zidane não poderia ter mais este triunfo sobre o povo brasileiro. Sobre Ronaldinho Gaúcho, inclusive.

segunda-feira, junho 26, 2006

Raízes da História - Holanda vs Potugal na Copa do Mundo de 2006

Para a maioria das pessoas foi apenas mais um jogo de futebol ou um jogo na Copa do Mundo de 2006. Para a maioria das pessoas foi um jogo violento, cheio de cartões amarelos, quatro jogadores expulsos, apenas um gol de Maniche, português, e isso é um lado da história. Mas eu vi o jogo com outros olhos. Afinal, eu gosto de História.
Existe, sim, uma rixa histórica, medieval, entre Holanda e Portugal. Uma rixa que se prolongou e acirrou com a expansão das colõnias européias pelo novo mundo, pela América mais precisamente, e que nada mais era do que uma corrida pelo domínio da economia mundial. Holandeses, que são anglo-saxões e vikings, tem em sua origem uma característica especial para os tempos médios. Eram protestantes, em sua maioria, ou judeus e viviam sobre à sombra maligna da Igreja Católica Romana, perseguidos e punidos com violência em toda parte da Europa. Mas na Holanda tinham construído um país com liberdade de culto, com uma cidade comercial famosa, Flandres, e era berço de muitos intelectuais e ousados comerciantes que, embalados pela fé sebastiana nas viagens ao mar, o qual os lusitanos teriam como seu quintal, e foram buscar mais perto de casa o que só havia na Índia e no Sul do continente africano. Portugal, antes conhecido como Condado Portucalense, foi um presente do Rei da Espanha para um cavaleiro depois de seu êxito na guerra de expulsão do mouros e no combate a infiéis da cristandade. Era, no entanto, profundamente influenciada pela matemática e pela arquitetura árabe e tinha no mar a esperança de crescer como potência. Com as ousadas viagens à Índia e com o aumento do mercado na Europa em busca de especiarias, e principalmente pela tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, os portugueses foram obrigados a inventar novas rotas para manter seu comércio. Em 1500, chegados ao Brasil, logo não acharam por aqui nada que lhes convinha. Mas em águas caribenhas já se encontravam holandeses pirateando ou procurando terra para colonizar, mesmo ela sendo da Espanha por causa de um acordo com Portugal, para plantio da mais nova iguaria em voga nos círculos da nobreza e dos burgueses europeus: o açúcar. Os holandeses aportaram no nordeste brasileiro algumas vezes e por aqui modificaram as estruturas sociais do Nordeste com sua Companhia das Índias Ocidentais.
Quando os portugueses se deram conta de que tinham que estabelecer a soberania da colônia, através da ocupação social e da exploração do pau-brasil, já estavam em franca concorrência com os holandeses em busca de atrativos e novidades no mercado. O holandês, empreendedor, foi um explorador voraz. O português, empreendedor, foi um explorador iludido.
No jogo me atentei a isso aí e mais um monte de coisas que eu sei sobre Portugal e Holanda, agregando-se ali ou aqui alguma dúvida que eu tiro quando chego em casa, quando pego meus livros e descanso um pouco à cabeça.
Um jogo de futebol para a maioria, mas pra mim foi um jogo com 500 anos de história e rixas, por isso a agressividade, as faltas em excesso e as expulsões. Silêncio.

segunda-feira, junho 19, 2006

Extemporâneas N# 4 - O Brasil precisa de um plano melhor

Pra mim não é muito fácil ler notícias pela internet. O efeito que um jornal ou revista tem em minhas mãos é muito maior do que tem a informalidade dos meus olhos refletindo a radiação do monitor colorido. Uma coisa na qual eu acredito bem mais ou menos são nos meus olhos e por isso eu aceito o experimental e o espontâneo como uma bela faceta humana. Mas me impressiona como, depois de anos de estudo e observação, pequenas linhas em sites de notícias me desapontam.
Meu pai uma vez me disse que teria um dia na minha vida onde eu teria que escolher entre viver uma ideologia pessoal política ou apenas viver surfando o sistema apoiado meramente no estar vivo e poder apreciar aquilo que é bom nas coisas da vida. Demorei muito para compreender que meu pai tem razão quando diz isso pra mim, afinal nada que eu tenho foi construído facilmente. Minhas mãos calejadas, sim, calos de verdade porque já brinquei muito com enxada, tijolos, sacos de fumo de arapiraca, corte de grama, lava-carros humano e muito mais, parecem úteis depois de tantas práticas mecânicas, servem para me alimentar e acariciar os cabelos, os pêlos, a pele, as penas, o algodão. Política parece não ter sentido. Marx me assusta pois ele previu o que somos em suma: escravos do salário. Mesmo que o salário seja uma surrealidade do brasileiro e, na melhor das piores hipóteses, o buraco da previdência social pois não teve político capaz de entender que para uma reforma, para uma revolução interior, é necessário abrirmos mãos de privilégios coletivos. É necessário começar do ZERO para que, de uma vez por todas, uma idéia séria sobre dinheiro ampare com modernidade a falência do governo, o buraco negro das contas. Li que o PPS vai apoiar Alckmim discretamente. Alckmim? Já me deparei com o fantasma-Lula e não entendi nada do que aconteceu com seu governo, apesar das estatísticas favoráveis, na verdade o que era preciso mudar e melhorar, o que era preciso coragem vermelha pra igualar e aparar arestas não foi feito. Continua-se a po´lítica dos números e do assistencialismo social público. Meu sogro foi ótimo quando disse que estamos vivendo as legislações do século XVIII, eu me sinto colonizado como um brasileiro do século retrasado também. Pense bem, a dissidência do PT apoia o PSDB, o PT não está em posição de encarar as deficiências estruturais de cento e poucos anos de República e nossa república, uma das únicas verdadeiramente, é uma bagunça, e as opções para o VOTO ficam restritas ao interesse pessoal, ao ego e dinheiro e a moral e aética ficam em segundo plano. Quantas vezes vi amigos votarem em candidatos que ia priviliegiar seus pais literalmente. Eu nunca fiz isso. Não sei mais o que fazer com meu voto pra falar a verdade. Já discuti sobre o voto nulo, já escrevi uma música que fala levemente sobre isso mas não sei se o preparo político do povo intelectual e burguês e da indústria do Brasil tem a capacidade de incorporar novos canditados além destes poucos que nos representam mal e porcamente. Em quem eu votaria depois de anular meu voto? O presidente colombiano recém-eleito, Uribe, disse que a América Latina está pagando o preço por colocar no poder pessoal sem profissionalização política e intelectual em cargos de responsabilidade. Taí, eu concordo com este político mas sofro muito por isso. Eu já tinha pensado muitas vezes nisso e só as contas, a vida na estrada e minha família já me dão mais do que muito para pensar. A vida, como eu disse, nunca me foi fácil. Grato e feliz eu me sinto por isso. Sinto que carrego uma cruz bem menos pesada do que muita gente por aí. A saúde me é companheira e da minha mulher e filho também. Tenho uma avó de 90 anos e outra de 75. Na genética em mim existe uma química favorável à velhice. Bem, Brasil, é preciso coragem para mudar. Eu sou do tipo de homem que, se meu pai aceitasse suborno, eu não mais falaria com ele e ele bem sabe disso. Eu entregaria meus irmãos se eles fossem bandidos. Eu sou moderno a esse ponto. Silêncio.

domingo, junho 18, 2006

A gente é aquilo que o sentimento e a emoção não é - uma energia!

Me flagro diariamente em um diálogo profundo com meu trabalho. Cada dia que passa eu sinto que fica mais importante criar bases, ritmos, uma poupança segura para desempenhar minha responsabilidade com alegria. Durante minha juventude, tocar baixo sempre foi uma diversão muito boa. E hoje, tenho certeza, o nível de intimidade que eu tenho com o meu instrumento de trabalho é quase uma relação erótica e sexual, rola uns pegas aqui e ali, mas o beijo é sempre de língua. Também me sinto fragilizado quando não estou conseguindo seguir os dois ritmos que eu sou obrigado a acompanhar enquanto transando um som, um show, aquele momento mágico que rola no palco: o ritmo da bateria e o embalo do público. A relação exata entre o bumbo, a caixa e o sorriso das pessoas que vão a um show do Maskavo é diretamente proporcional ao preparo emocional necessário para embalar milhares de corações por minuto. O baixo é minha segurança e tem sido o elo de meus dedos com os pés dos fãs. Eu vibro em uníssono. Preciso que o ritmo surja das entranhas da bateria. O primeiro toque da baqueta na pele da bateria é o mais importante. A primeira nota na cabeça do tempo que sou obrigado a tocar tem que ser um veludo. O violão é o tempero. A interação do baixo com a bateria é conhecido pelo nome de swing. Com swing, com tudo. Sem swing, sem tudo. Aliás, swing hoje é também uma prática sexual coletiva, consensual e faz parte do imaginário popular. Eu acho que tocando baixo sou capaz de fazer uma pessoa gozar. Não tenho sentimentos e emoções guardados quando estou tocando. Não fico raciocinando também. Mas na hora H, quando o ritmo se perde em nosso medo, falta de preparo e falta de concentração, quando tudo está quase dando errado, a luz! Uma música ótima para reunir a energia que perdemos em nosso medo. Pois bem, eu não vascilo. E se vascilo, ninguém vê. Silêncio.

quarta-feira, junho 07, 2006

A Iinfluência de Coltrane em meus neurônios cheios de saudade!

A Maioria dos excelentes discos que eu já ouvi e ouço, porque já me acostumei a idéia de que bastam cem discos para você saciar toda sua fome de música, tem como figuras essenciais ritmistas, os quais eu admiro tanto que dói. Me lembro de quando eu era uma criança e as pessoas queriam ser guitarristas, solistas como Stevie Vai ou Joe Satriani, tocar uns rocks velozes como os do Megadeth. Pô, os três primeiros discos do Metallica o meu irmão mais bonito tem, eu já ouvi muito tudo aquilo e acho autêntico pra caralho, mas não é a minha música preferida. Mas lá nos idos de 92 o que pegava em Brasília era o Metal, não esse metal Massacration que de tão bom me dá uma certa nostalgia a lá Mamonas Assassinas, esta sim, um fenômeno do excraxo ridículo, que salve-se o Premeditando o Breque, coisa sensacional e marcante de minha infância, e os músicos da época iam ter aulas na Musimed com o Parente e com o Fred. Eu mesmo fui aluno por dois meses do Fred, mas algo chamado dinheiro, depois a preguiça de andar de ônibus duas vezes por semana com o baixo no lombo me fizeram acreditar que eu era capaz de aprender a tocar baixo sozinho. Foi a melhor decisão que eu já tomei na vida. Me guia até hoje por qualquer caminho. Tocar a vida sozinho. A raça mais difícil de encontrar pra fazer um som legal é baterista. Na época tinha o César Borgatto, eu achava ele um baterista de merda, mas adorava as técnicas que ele usava pra tirar um som. Eu pensava “preciso de um Borgatto mais porra louca, mais novo e que não seja careca!” Tinha um fenômeno da bateria chamado Maurício, um desses talentos genuínos que o pai apoiava porque é assim que um pai tem que agir. Tinha 13 anos, tocava Pink Floyd, Led Zeppelin e tinha pratos Zyldjan, todos. Aquilo me motivou. Eu tinha 16 anos, era mais velho, mais pobre e não tinha apoio algum em casa pra levar música a sério. Por isso mesmo que um baterista sério seria a chave para que uma banda desse certo. Se fizesse os meus pais rebolarem o jogo estaria meio-ganho. A outra parte, é claro, era a escola. Sempre ensaiei em casa com meu irmão gêmeo e o meu irmão mais novo ensaiava com a banda de rock psicodélico dele. Tinha um menino canhoto-guitarrista chamado Filipe, o cara mais talentoso que eu já vi tocar guitarra e, com um detalhe, com o coração. Ele era o hendrix, pra mim. E é sério quando eu digo que ele era o HENDRIX. Canhoto, solista e compositor e extremamente livre dedilhando sua péssima guitarra, uma Jennifer Strato. Que guitarrinha ruim! Mas o menino era fantástico e motivava todo mundo, eu e a minha banda, a banda dele todinha, meus pais e a vizinhança sentava na varanda, um dos meus vizinhos fumava um e ficava ouvindo a gente tocando The Beatles, Nirvana, Smashing Pumpkis, The Pixies, Led Zeppelin, Rolling Stones, Mutantes, Raul Seixas, The Smiths, Pink Floyd e todas as nossas composições. Era o nosso Woodstock porque, pra melhorar tudo, tinha platéia feminina. Isso era um hábito desde que eu me entendo por banda. Minha primeira banda, os The Sounders, tinha esse apelo feminino. A gente convidava as amigas da escola pra ir ouvir a gente ensaiando The Beatles, Raul e Roberto Carlos, tomar banho de piscina. Todo Sábado na casa do James, onde começou a minha crença de que toda banda boa não ensaia em estúdio pago. Pagar pra tocar dói muito! O menino Hendrix-Filipe foi a excessão sobre guitarra que eu já vi. Ele explodia ao vivo, solava muito bem e tinha espírito, um feeling pro bom gosto da porra. Meu irmão gêmeo é outro excelente guitarrista porque sabe criar harmonias que cantam, dobram a voz. Isso, depois que eu descobri o Jazz, é a coisa mais linda a se fazer em uma música. E se o guitarrista for bom, a magia fica rock n'roll. Tanto que os quartetos de Jazz mais famosos do mundo NUNCA tiveram um guitarrista. O baterista que tocou comigo durante anos era musical, esforçado, mas era uma merda. A minha mãe costumava dizer que o esforço que eu colocava individualmente e na própria banda era desequilibrado, superior ao dos demais integrantes. Na época eu achava isso um absurdo, mas hoje eu dou razão a minha mãe. Todos os dias eu e o Breno tocávamos de manhã, antes de ir pra escola, de tarde, de noite. Todos os dias, mais os ensaios de Sábados e Domingos. E, no fundo, por ser autodidata, eu via que me desenvolvimento musical era lento, progressivo e estiloso. Uma coisa eu aprendi. Ninguém toca como eu. Ninguém mesmo. Já me convenci que uma das razões pelas quais eu apoie o experimentalismo em todos os sentidos é o fato de que a auto-influência somada a convivência com o meio será capaz de dar instrumentos para que cada um seja bom naquilo que se dedica. Meu colega baterista era baterista de final de semana. Pra mim isso nunca bastou. Quando eu entrei no Maskavo eu percebi que tinha muita coisa a aprender sobre baixo. O reggae estava em minhas veias, mas não nos meus dedos e no meu coração. Com o Prata, com o Quim e com o Marceleza eu pude extrapolar, dar vazão a um coisa que eu sempre admirei no contrabaixo: a capacidade instrumental de poder ser um instrumento melódico e rítmico. Nas minhas experiências e músicas anteriores eu conseguia, de uma certa maneira, ser melódico. Mas o rock, em si, faz o baixo parecer muito mais um som profundo e presente do que pontuante e misterioso. James Jamerson, Jimmy Garrison, Sting, Andy Rourke, Peter Hook - o cara do New Order - , Geddy Lee são alguns exemplos de contrabaixistas que iam além do instrumento e de suas limitações. Um instrumento de 4 cordas muito elegante, inclusive. O reggae, com Aston Barret e Robbie Shakespeare, pra mim não seria nada sem Carlton Barret e Sly Dunbar. Os dois melhores bateristas do MUNDO! Tem uma caralhada de caras bons no rock, Stuart Copeland, John Boham, Mitch Mitchell, etc, mas esses dois jamaicanos deram o toque final que mais influencia as batidas de dance no mundo hoje em dia. O Raggamuffin, o DanceHall, o Funk, o HipHop, o Rap, o Reggae, o Rock. Eis que o up-down beat do reggae dominou o mundo sobre a forma de uma quimera, uma Hidra de Lerna de 200 cabeças. Mas ninguém se pergunta de onde vem e pra onde vai o reggae? Eu me pergunto todos os dias porque eu gosto tanto de reggae e de jazz, afinal são músicas genuinamente mestiças, como o forró, o baião, o xaxado, o bumba-meu-boi, muitas outras que eu não conheço. Aprendi a gostar de músicas dos orixás, a música da Bahia antiga e mística e brasileira, da música chamada Bossa Nova e estou aprendendo violão. Que instrumento bonito e charmoso. Se tiver um bom percussionista, então...

A Morte

A Morte não é exclusiva e nem é o fim. A morte é como o selo de uma carta
que você quer enviar para uma pessoa distante. A morte, enfim, é um meio de
vida e de sentir que existe vida em tudo. Em uma sociedade dominada pela
rapidez da informação, está cada vez mais difícil digerir o que é real e o
que é apenas notícia. Está difícil dicernir o que é volátil e o que veio pra
ficar. A sociedade civil, de professores, médicos, policiais, músicos, vive
nas cidades com aquele medo de ser assaltado, medo de perder a namorada,
medo de não ter dinheiro para comprar fraldas descardáveis. Medo de quase
tudo que não se tem poder. Mas ninguém pode com a morte. A morte é o cessar
da vida, do coração, mas não da memória, da lembrança, da saudade e das
referências e influências que as pessoas, em vida, legam aos seus
familiares. Por isso ter filho, como a natureza sabiamente ensina, faz parte
do ciclo da vida e da morte.
Uma morte acidental, um assassinato, é muito sério. É brutal para a família
e para os amigos. É brutal porque fere a natureza e seu ciclo perfeito. Fere
porque geralmente acontece, um assassinato, por causa de inveja,
má-educação, por causa do excesso de materialismo a que somos submetidos. As
expectativas de um jovem são rasas e muito pouco criativas. Faculdade é bom,
mas pra que? Posso ser morto, assim como uma menina em São Paulo, pelo
namorado no campus da Universidade pública. Posso ficar rico e famoso e
tomar um tiro perdido na frente de uma boate, assim como aconteceu em São
Paulo no final do ano passado com um conhecido, posso estar dirigindo e ser
fuzilado porque não quis parar meu carro. Putz, ser conivente com bandido já
é a melhor maneira de não morrer em uma cidade. Abre-se mão do que se chama
segurança por uma casa em um condomínio fechado. Mas seu vizinho pode ser
ladrão do colarinho branco. Qual a diferença afinal?
Pra mim a diferença são as prioridades. Se o que fizeram no Rio de Janeiro, uma
tentativa de assalto contra uma família, onde uma das pessoas era o músico
dos Detonautas e amigo, Rodrigo, onde deixaram o carro baleado, o menino
morto e seu irmão ferido, não fosse algo que me aproximou da morte, então
continuaremos todos cínicos e silenciados pelo medo e pela incapacidade de
reagir a algo tão violento, mas que parece real nos noticiários, jornais e
bate-papos de boteco.
A guerra precisa acabar dentro de casa. Normalmente é assim que acontece a
primeira morte: a morte do bandido.



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sábado, maio 27, 2006

Meu olho doeu!

Eu fui chamado outro dia de bucólico pós-moderno. Não entendo o significado de nada que seja pós-moderno, até porque meu amigo mais poeta de hoje em dia sabe muito bem que a pós modernidade é apenas uma análise inferior da já atualizada hiper-modernidade, sociedade de consumo infinito que não tem parâmetros pessoais para saber se tem por necessidade ou por não mais diferenciar o necessário do que é supérfluo e neuroproduzido pela ignorância e desejo se perde nesse tempo.
Fui olhando por aí até que meu olho doeu. Como se eu visse meu retrato de 1994, atualizasse uns 15 quilos e depois colocasse ao lado a memória brasiliense do canal arte. Eu não tenho mais nada a perder senão um ou dois neurônios. O choque, eu sinto ele como um implulso elÉtrico em meus cabelos. É a minha inteligência e a minha consciência dizendo "use seus olhos para olhar fixamente um ponto qualquer que se reproduza no nada, um ponto de luz" e eu olharei meu filho. Coloquei a foto dele colada em meu peito para que todos os dias eu possa ficar com ele. Estou desperto neste sonho elétrico em vibrações ultravioleta e sonoridade ruidosa, minha mente cessa e não quero mais parar de não mais pensar e deixar de estar por aqui. Um sonho apenas se torna realidade quando deixa de ser apenas uma reflexão interior e passa a ser olhado por observadores críticos e impessoais. Mais um choque na cabeça e meus cabelos ficaram como arame farpado. Já basta de tantas lembranças. Meu amigo poeta diria que divaguei, mas tenho certeza de que no subliminar existe, com certeza, uma boa história de ódio entre amigos, uma inimizade extrema em tons negros e a saudade de não se importar com o que não tem solução. Enfim, eu não sou muito fácil e ninguém é, em suma. Silêncio.

quarta-feira, maio 17, 2006

Expor-se como uma cicatriz - Ópus, o pus, depois

Faz tempo que eu não tenho tempo para expor tudo aquilo que tenho observado. Ou seja, estou como a cachoeira da fumaça duas vezes por ano. Resolvi abrir um pouco a torneira da minha mente, desanuviando um rio de emoções que se afloraram com o nascimento do meu filho. Seu olhar quase não se fixa ao meu. Tudo para ele é novidade inclusive eu. Mas minha voz ele conhece, sabe que é a voz do conforto, de um homem que beija, beija e faz prrrrrrrrrrr na barriga dele, beija os pezinhos. Daí, depois de tanto beijo, um carinho apertado para que ele arrote. Fico criando melodias durante este tempo, uma letra pra ele, quem sabe um tema musical. Esta noite sofri pois estive cantarolando uma excelente melodia abraçado com minha mulher e filho. ´Nem me atrevi a decorar, deixar de dormir com eles, para fazer a música. Sei que ela, a melodia noturna, está comigo e se escondeu-se, aparecerá!
Fui tocado por uma maliciosa vontade de vencer. É necessário o carinho para que tudo isso, viver, não seja em vão. Escrevo velozmente e feroz porque não posso ficar. Meu filho só tem olhos pra ele. E eu também. Silêncio.

quarta-feira, maio 03, 2006

Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar...Rir pra não chorar - Cartola

Na medida em que os anos passam e aquela história de vida começa a se tornar, ao invés de um conto ou um filme, um livro é bom avaliar o peso e a qualidade das coisas mais importantes. Na medida em que os anos conjugam distância e proximidade, saudade e memória, amor e ódio é também possível avaliar se estamos ou não bem acompanhados nesse livro.
A história da amizade é muito antiga. A amizade fraterna, essa coisa moderna em que dois ou mais indivíduos são amigos por interesses comuns, já era. Quando os gregos sentiam amor pelo amigo, eles viravam amantes. Rumi, o poeta místico, também encontrou em um amigo sua alma gêmea, o então Shams de Tabriz. Existe a inesplicável natureza dos irmãos gêmeos univitelinos e a relação de amizade que ela forma: é intensa e amorosa. ´
Os anos passaram para mim com velocidade zero e de tão vagarosos permitiram que certas facetas dos outros indivíduos fossem muito bem observadas por mim. Isso implica dizer que eu sabia dizer, desde criança, se uma pessoa era ou não um bom amigo. Mesmo que meus pais não gostassem dele. Mesmo que ele fosse mudando de um bom amigo para um péssimo amigo, eu conseguia enxergar a linha tênue entre o infinito fraterno e a amizade passageira. A maior revelação de todas foi entender que para ser um bom amigo eu tinha que virar amante de mim mesmo, aprender a ser sereno para poder doar e receber o que é fundamental em uma amizade: amor.
O amigo não pede; o amigo senta ao lado do silêncio e morde como um leão frente às mazelas que aflingem suas amizades; o amigo sabe aconselhar; o amigo reconhece quando erra; o amigo não abandona o amigo; o amigo pensa em seu amor pelos outros; o amigo divide a alegria e a tristeza na mesma sintonia e medida que divide cerveja, dívidas pequenas e namoradas; o amigo troca uma mulher para não chatear o amigo. E talvez aqui eu coloque um parênteses. O amor que sentimos pelo amigo e pela amante pode conflitar porque o amigo as vezes não quer saber de ser amigo da amante do amigo, sacou? As vezes a amante acha que o amigo é uma influência ruim; na maioria das vezes o amigo tem a razão. Mas as exceções existem para colorir o ciclo das rotinas. Amigo não faz fofoca; amigo chora e o outro chora junto.
Muitas vezes acontece de você se tornar amigo da sua amante. Isso é uma situação ideal e muitas vezes ela eleva muito a qualidade da relação amorosa entre duas pessoas porque o amor delas jorra como uma fonte inesgotável. Isso gera inveja porque todo mundo quer viver assim.
Voltemos à antiguidade e assim veremos que no começo dos tempos homens preferiam bichos aos homens para serem amigos. Amigo do gato, do rato, do camelo. Pois se havia divindade nos animais era melhor ser amigo de Deus do que dos homens. Na Pérsia existe um ditado que diz:" Visita é como peixe: depois de três dias começa a feder." Moral da história: amigo é peixe que nunca fede! Silêncio.

sábado, abril 01, 2006

Agenda mental

Eu conheço uma pessoa que tem uma das vidas mais confusas que eu já vi. Porque tudo o que essa pessoa escolheu pra ser, viver, deu errado. Cada decisão parecia ser à luz no final do túnel ou a descida para um enorme buraco. Geralmente, atolado na escuridão, João Pessoa se comunicava consigo mesmo para encontrar Deus ou uma escapatória para seus pensamentos, tantos pensamentos irreais, que só deixavam-no tonto. A última coisa que tinha dado errado era um negócio com materiais de construção. O que adiantava ter uma idéia brilhante, pois todo mundo precisa construir e ter onde morar, um teto fresco e de alvenaria de preferência, se todo mundo só queria viver em barracas de lona? João Pessoa se viu pobre demais com 45 anos de idade. E junto com sua pobreza tinha mais de milhão, milhão de outros miseráveis sem fortuna ou sorte que rumavam todos num zigue-zague sem destino pelo país em busca de algo pra comer e um trabalho que fosse real e cansativo. João Pessoa teve filhos. As meninas todas já casadas não falam mais com ele, foram embora cada uma com seu marido e uma mágoa muito grande com ele por causa de Fulô, sua mulher, a décima que teve, que espantou todo mundo de casa com seu mau humor, fedor e péssima culinária. Foi a única mulher de João Pessoa que não morreu. Ele que sofreu. Fulô dava chifre no velho quase todos os dias porque tinha muito fogo na barriga. E cada bimbada que ela dava era como colocar mais lenha naquele corpinho de 30, fogueira que o João Pessoa mandava ver pelo menos uma vez ao mês e só. Fulô era uma branquela gorda com os dedos amarelos que tinha os peitos mais lindos do mundo e só.
Quando os meninos de João Pessoa cresceram, cada um virou algo ruim. Jogador, gigolô, vagabundos, um deles virou bandido e estava preso por roubar uma mercearia. O filho de João Pessoa roubava por fome. E nenhum deles conseguia ajudar o pai com algum trocado ou coisa parecida e a vida dura na casinha de chão só tinha sentido porque o coração daquele velho era muito forte. Quando se tem um coração sofrido daqueles, a esperança é a última coisa que morre. Fulô fugiu um dia e deixou o velho com uma dívida no bar de uns R$67. Mais uma pra ele. Dono de um famoso gancho de direita, João Pessoa tinha sido boxeador amador no clube Remo, em sua cidade. Lutou e treinou feito cão e adorava tomar pancada na cabeça. O Boxe e o treinador Celso foram os únicos que deram comida e banho pra ele. Cada pancada na cabeça era um alívio. Depois do treino tinha um prato de arroz com feijão, pedaço de carne e batatas. Uma delícia pros punhos! E o treinador não fazia rogado. Levava João Pessoa pra comer uma puta ou tirar uma casquinha com seu Kharman Guia.
Com 38 anos de idade perdeu um dedo de cada pé. Estava olhando um avião no céu, aquele pássaro do futuro com barulho de pum elétrico, em cima de um cavalo emprestado. O cavalo viu uma cobra e deu um pinote, João Pessoa caiu e o cavalo pisou cada dedo com cada casco, uma dor indescritível com o esmagamento dos dedos e mais uma hora de viagem a cavalo até chegar no pronto-socorro. Sem os dedos dos pés João Pessoa conseguiu uma aposentadoria por invalidez que ele nunca recebeu.(Para todo efeito o soldo dele está nas mãos de algum filho da puta rico que desviou dele e de mais uns 40 beneficiados uma aposentadoria de R$200.). Quando tinha uns 19 anos João Pessoa teve o ânus perfurado depois de descer de um caminhão de cana e tropeçar em uma pedra, acionar sem querer o motor da trituradeira de caldo e fazer o toco de cana entrar com tudo no seu fiofó, aquele toco que sobra sempre pros azarados.
Pensei em mim, em como minha vida é boa e os maus pensamentos foram embora. Silêncio.